Textos de Mestre Dogen (13)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma
Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante
Parte 4: A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”
Parte 5: A necessidade de procurar um verdadeiro Mestre

6. O que você deve saber para a prática do Zen

O estudo do Caminho através da prática de zazen é de vital importância. Não deve ser negligenciado. Na China há excelentes exemplos de antigos mestres Zen que deceparam seus braços ou dedos[1]. Há muito tempo o Buda Xaquiamuni renunciou tanto ao seu lar quanto ao seu reino, outra preciosa evidência da prática do Caminho. Nos dias de hoje há quem afirme que os indivíduos necessitam apenas das práticas que podem ser realizadas facilmente. Essas são palavras muito equivocadas e, muito distantes do Caminho. Se você se dedica a uma coisa, exclusivamente, considerando isso uma forma de treinamento, qualquer coisa, até o ato de se deitar, pode ficar entediante. Se uma coisa fica entediante, tudo o mais fica tedioso. Você deve saber que aqueles que gostam das coisas fáceis, são, por isso mesmo, indignos da prática do Caminho.

Nosso grande mestre Xaquiamuni, só conseguiu alcançar o ensinamento que prevalece no mundo atual após se submeter a severo treinamento por incontáveis eons. Considerando-se quão dedicado foi o fundador do Budismo, podem os seus descendentes querer fazer menos do que ele? Aqueles que buscam o Caminho não devem procurar por uma prática fácil. Procedendo assim, vocês jamais serão capazes de alcançar o mundo verdadeiro da iluminação ou de encontrar a sala do tesouro. Até mesmo o mais talentoso dos antigos ancestrais afirmou que o Caminho é difícil de praticar. Você deveria se dar conta do quanto o Budismo é imenso e profundo. Se o Caminho fosse, originalmente, tão fácil de praticar e entender, esses primeiros e talentosos ancestrais não teria chamado a atenção, exaustivamente, para suas dificuldades. As pessoas de hoje, quando comparadas aos antigos ancestrais, não chegam nem a um único fio de cabelo em relação a um rebanho de nove vacas! Isto quer dizer que, mesmo se essas pessoas modernas, que não possuem nem habilidade nem sabedoria, se esforçassem ao extremo, a sua prática, imaginada como difícil, ainda assim seria incomparável aquela dos primeiros ancestrais.

Qual é o ensinamento tão facilmente entendido e praticado que as pessoas de hoje, ingenuamente, tanto apreciam? Não é nem um ensinamento secular nem Budista. É inferior até mesmo às práticas de Pãpiyas (demônios), do Rei Demônio,  as práticas fora do Caminho e as dos dois veículos[2].  Pode-se dizer que é a grande delusão dos homens e mulheres comuns. Embora eles imaginem ter escapado do mundo delusório, ficaram, ao contrário, meramente sujeitos à transmigração sem fim.

Quebrar os ossos e esmagar a medula para alcançar o Budismo são consideradas práticas difíceis. No entanto, é muito mais difícil, controlar a mente. Prolongadas austeridades e prática pura  são difíceis, mas controlar as ações físicas individuais é o mais difícil de tudo.

Se o esmagamento de ossos valesse alguma coisa, os muitos que enfrentaram esse treinamento no passado deviam ter alcançado a  iluminação; mas de fato apenas alguns poucos conseguiram. Se as práticas de austeridade tivessem algum valor, os muitos que assim procederam desde os tempos antigos teriam se tornado iluminados, mas neste caso também, poucos o conseguiram. Tudo isso ocorre devido a grande dificuldade de harmonizar corpo e mente. No Budismo, a mente brilhante e a compreensão escolástica não são essenciais. Também não o são, a mente discriminatória, a vontade, a consciência, pensamento e percepção introspectiva. Para entrar no Caminho de Buda é preciso simplesmente harmonizar corpo e mente.

O velho Buda Xaquiamuni disse: “Kannon Bodhisatva gira o fluxo da percepção para o interior profundo da mente, abandonando o conhecimento e o reconhecimento” Aqui está o significado do que foi dito acima. As duas qualidades: de movimento e de não movimento não apareceram de forma nenhuma; esta é a verdadeira harmonia.

Se fosse possível penetrar o Caminho baseado em possuir uma mente brilhante e grande conhecimento, o culto Shên-Hsiu[3], teria sido, com certeza, capaz de fazê-lo. Se a origem modesta fosse obstáculo para penetrar o Caminho, como Hui-Neng[4], se tornou um dos ancestrais chineses? Estes exemplos mostram, claramente, que o processo de transmissão do caminho não depende nem de uma mente brilhante nem de amplos conhecimentos. Ao buscar o Darma reflitam sobre si mesmos e treinem diligentemente.

Nem juventude nem idade avançada constituem obstáculos para entrar no Caminho. Chão-Chou[5] tinha mais de sessenta anos quando começou a praticar e ainda assim se tornou proeminente ancestral. A filha de Cheng[6], por outro lado, tinha apenas treze anos, mas já tinha alcançado uma profunda compreensão do Caminho, tanto que se tornou uma das mais preciosas aprendizes do seu mosteiro.

A grandeza do Dharma de Buda se revela de acordo com o esforço e a prática realizados.

Aqueles que se dedicarem apenas ao estudo dos sutras, assim como aqueles versados em estudos seculares, deveriam visitar um mosteiro Zen. Há muitos exemplos dos que assim o fizeram. Hui-ssü[7] do monte Nan-Yueh era um homem de muitos talentos e ainda assim se submeteu ao treinamento de Bodidarma. Hsüam-chüeh[8] do monte Yung-chia era o mais fino dos homens e, assim mesmo treinou com Ta-chien (Hui-nêng). O esclarecimento do Darma e a realização do Caminho dependem da força adquirida com o treinamento sob a orientação de mestres Zen.

Ao visitar um mestre Zen em busca de instruções, ouça seus ensinamentos sem tentar adequá-los ao seu ponto de vista, caso contrário você não poderá entender o que ele está dizendo. Purifique seu corpo, mente, olhos e ouvidos e simplesmente ouça seu ensinamento, refutando qualquer outro pensamento. Unifique corpo e mente e receba o ensinamento do mestre como se a água estivesse sendo transferida de um vaso para outro. Se puder alcançar tal estado de corpo e mente, a verdade que o mestre ensina será a sua verdade.

Atualmente, há algumas pessoas tolas que se dedicam a decorar palavras e frases dos sutras e outras que se apegam àquilo que ouviram anteriormente. Agindo assim, tentam comparar o que aparentemente sabem com os ensinamentos de um mestre. Não fazem mais do que manter seus próprios pontos de vista e as palavras de pessoas antigas, ignorando assim as palavras do mestre. Há ainda outros, que atribuindo maior importância ao seu próprio pensar auto-centrado, abrem os sutras e memorizam uma ou duas palavras imaginando que isso seja o Dharma de Buda. Mais tarde, ao receber o ensinamento do Darma de um mestre Zen iluminado, eles o consideram verdadeiro se coincidir com seus próprios pontos de vista, caso contrário os consideram falsos. Não sabendo como abandonar o ponto de vista equivocado, não podem retornar ao verdadeiro Caminho. São dignos de pena, pois ficam sujeitos à eterna delusão. Que lamentável!

Os praticantes devem entender que Buda está além do pensar, do analisar, do discriminar, da imaginação, da percepção e da compreensão intelectual. Se não fosse assim, como é que, mesmo tendo sido dotado dessas várias faculdades desde o nascimento, você ainda não entendeu o Caminho?

Presunção, discriminação, imaginação, intelecto, compreensão humana e assim por diante não tem nada a ver com o Budismo quando estudando o Zen. Muitos assim como crianças, brincam com estas coisas desde o nascimento, acordem para o Budismo agora. Acima de tudo evite presunção e discriminação: reflita sobre isto.[9]

O caminho de penetrar o portal é conhecido apenas pelos mestres que obtiveram este Dharma. Não pode ser alcançado pelos que apenas estudam textos.

(Este texto foi escrito num dia claro e brilhante do terceiro mês do segundo ano de Tempuku[10])


[1] Cortar o braço se refere a Hui-Ko (481-593), o segundo ancestral Zen na China, que cortou seu braço na presença de Bodidarma no templo de Shao-Lin para mostrar o quanto era sincero seu desejo de treinar com aquele mestre. Cortar o dedo refere-se a um dos discípulos de Chu-chi que demonstrou o sentido do budismo para outras pessoas, apenas imitando o hábito de seu mestre de levantar o dedo. Um dia Chu-chi descobriu o que seu discípulo estava fazendo e cortou o dedo do discípulo para faze-lo perceber a verdadeira natureza do budismo.

[2] Ensinamentos dos Sravakas e Pratyebuddhas. Sravakas eram pessoas que esforçavam-se para se tornar Arhat, isto é, aquele que alcançou a iluminação por si mesmo, mas não se preocupa em salvar os outros. Pratyekabuddhas são pessoas que alcançaram a iluminação através de estudos independente, sem a orientação de um mestre. Eles também não se preocupavam  em salvar os outros.

[3] Viveu entre 606-712. O fundador da Escola Zen do Norte da China, foi líder dos discípulos de Hung-jen, (Konin em japonês) o Quinto Pratriarca. Sua compreensão do Caminho era altamente intelectual, o que o impedia de realizar a iluminação total.

[4] Viveu entre 637-712. Foi o sucessor de Hung-jen (Konin em japonês). Realizaou a iluminação quando triturava arroz enquanto treinava no Monte Huang-mei.

[5] Viveu entre 778-897, foi sucessor de Nan-ch’uan, sendo famoso pelo koan  “Chão-chou wu, relatado na página 10.

[6] Não se sabe mais nada a seu respeito.

[7] Viveu entre 514 ou 515 até 577. É considerado como o Segundo Ancestral da Escola Chinesa Tendai. Após ter treinado com o mestre Hui-weng, em 570 foi para o Monte Nan-yueh, onde mais tarde morreu. É famoso por ter escrito um número importante de livros sobre o budismo.

[8] Viveu entre 665-713, é famoso por ter escrito a  “Canção da Iluminação” (Cheng-tao-ko).

[9] Superficialmente, a advertência imediatamente precedente de evitar “pensamento, discriminação e assim por diante, parece ser contraditada aqui. Entretanto, essas duas afirmações não estão realmente em conflito: para “pensamento, e assim por diante” que é para ser usada em última instância, está baseada como deve ser na prática real, não é o pensamento conceitual, e assim por diante,  do anterior. Este é um dos pontos chaves da Soto Zen.

[10] Para alguns estudiosos 5 de abril de 1234, para outros 15º dia do equinócio de primavera de 1234

Continuar a leitura: Textos de Mestre Dogen (14)

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

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Uma resposta to “Textos de Mestre Dogen (13)”

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