Maitreya: Manifesto Ecobudista Brasileiro

 

Manifesto Ecobudista Forum Social Mundial 2010

Forum Social Mundial 2010 Manifesto Ecobudista

 

No dia 28 de janeiro, no Forum Social Mundial 2010, com a presença de representantes de grupos budistas de Porto Alegre, foi encaminhado o seguinte documento:

MAITREYA:
MANIFESTO ECOBUDISTA BRASILEIRO POR UM BUDISMO OCIDENTAL.

Dedicado à memória do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

Gate, gate, hara gate, haraso gya te bodi sowa ka hannya shingyo
Ida! Ida! Ida para a outra margem! Ó Iluminação. Salve!…
Sutra do Coração da Coragem

APRESENTAÇÃO

Nós, ecologistas e budistas brasileiros não-sectários, sob os auspícios da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, AGAPAN, temos a honra de encaminhar ao FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2010 o “MAITREYA: MANIFESTO ECOBUDISTA BRASILEIRO POR UM BUDISMO OCIDENTAL” A finalidade deste documento é estabelecer uma agenda comum para a reflexão, discussão e ação entre budistas, ecologistas e outras pessoas interessadas. Definimos o ecobudismo como o movimento que gravita em torno desta agenda comum. O presente MANIFESTO ECOBUDISTA BRASILEIRO, soma-se a outras manifestações suscitadas pela crise ecológica provenientes do mundo budista, especialmente o documento The Time to act is Now – A Buddhist Declaration on Climate Change, abaixo-assinado, subscrito por lideranças budistas do oriente e do ocidente, encaminhado aos governos que se reuniram em Copenhague (dezembro de 2009) para deliberar sobre o aquecimento global.

POR QUE ECOBUDISTA?

O termo ECOBUDISTA do MANIFESTO  tem como objetivo  enfatizar  a questão ecológica como um movimento no interior do budismo e propor ao movimento ecológico um espaço e uma atenção para o budismo como paradigma ecológico não-ocidental. Acreditamos que tanto o budismo ocidental, em processo de formação, como o movimento ecológico, atualmente em estado de impasse ou retrocesso, sairão ganhando com esta mutualidade.  Nós, budistas brasileiros e ocidentais, sabemos que o budismo é asiático e não contribuiu para a crise ecológica instaurada pela europeização do mundo. O pensamento búdico está nas antípodas do fundamentalismo eurocêntrico suicida que preside nossas atitudes ecocidas e etnocidas diante da natureza e das culturas não-ocidentais. A nossa condição de brasileiros e ocidentais nos coloca o desafio de não participarmos na criação de um budismo ocidental aquém do budismo original, degradado, desvinculado e descomprometido com a nossa realidade, adaptado e integrado aos aspectos predatórios  e entrópicos da nossa cultura.

Por outro lado, o eurocentrismo que preside os atuais impasses do movimento ecológico e a institucionalização da questão ecológica pelos estados nacionais, sem a consciência das origens culturais e institucionais da crise  civilizatória global está dando sinais de esgotamento. Portanto, a proposta do ECOBUDISMO visa construir uma ponte entre budismo e  movimento ecológico. Acreditamos que esta conexão pode gerar uma sinergia na qual os dois processos serão intensificados.  A ecologização do budismo ocidental pode contribuir para nos tornarmos mais budistas e o budismo pode contribuir para nos tornarmos mais ecológicos.

POR QUE MAITREYA?

O fenômeno da globalização, nos seus  aspectos mais auto-destrutivos e predatórios,  deu-se através da europeização do mundo. Atualmente existe um amplo consenso entre budistas e ecologistas sobre o papel decisivo da cultura ocidental na configuração e na universalização da crise ecológica e civilizatória global.  Muitos ocidentais, budistas, não-budistas e ecologistas, consideram que o budismo é o paradigma ecológico por excelência.  Conseqüentemente, consideramos que o budismo, originário da Ásia, tem a potencialidade de se estabelecer no ocidente dando uma contribuição decisiva para o desenvolvimento de um novo projeto de civilização.  Por esta razão escolhemos como símbolo e inspiração do ECOBUDISMO a figura de MAITREYA, o Buda Futuro. A iconografia budista há séculos representa o Buda Maitreya como um homem de olhos azuis, sentado numa cadeira à maneira ocidental. É significativo que ele não esteja sentado na postura de lótus, normalmente identificada com o hinduísmo e o budismo extremo-oriental, e tenha olhos azuis, típicos de um ocidental. As imagens do Buda Maitreya evocam na sua simbologia uma  antiga premonição budista sobre o futuro do budismo e o budismo do futuro associados ao mundo ocidental, vale dizer, ao mundo globalizado e ocidentalizado em que vivemos.

POR QUE A HOMENAGEM A LÉVI-STRAUSS?

Dedicamos o presente MANIFESTO a Claude Lévi-Strauss, célebre antropólogo franco-belga, recentemente falecido, por quatro razões. Lévi-Strauss teve ao longo da sua vida e na sua obra (1) uma profunda ligação com o Brasil; (2) com as culturas indígenas remanescentes existentes em nosso país; (3) com o budismo, pois se considerava, praticamente, budista; (4) com a questão ecológica, vista como processo entrópico da civilização.  “Num plano geral, parece-me que o homem só se salvará reencontrando uma modéstia da qual o estudo das mais humildes entre as sociedades humanas pode, enquanto elas existam, ajudá-lo a reencontrar o caminho. Não é só o homem que é respeitável, porém a vida sob todas as suas formas. Tudo aquilo que o homem ganha à custa da vida torna-se uma ameaça para o homem. “ (…) “Acrescentarei ainda isso: no momento em que o homem é respeitável, não é somente o homem civilizado de ontem ou de hoje; é o homem total.  De todos os grandes sistemas filosóficos do oriente e do ocidente, um só, parece-me, soube compreender esta necessidade, vital para o homem, de devolver o homem ao seu lugar; é o budismo, em direção ao qual eu afirmaria a minha total simpatia, se este termo, aplicado a uma religião constituída, pudesse ter um sentido na boca daquele que lhe fala. Mas precisamente, nos seus limites, o budismo se aboliu ele mesmo como religião.  Eis porque, se eu vivesse numa sociedade que me obrigasse a professar uma religião, não me incomodaria de ser budista.”  Lévi-Strauss, em numerosas oportunidades, afirmou a sua admiração  sem limites pelo budismo, “a maior crítica do sentido de que a humanidade já se revelou capaz de fazer”, chegando a considerar uma tragédia civilizacional o budismo não ter chegado ao ocidente nos primórdios da nossa história, fato que poderia ter reorientado nossa civilização: (…) “esta lenta osmose com o budismo que ter-nos-ia cristianizado mais e num sentido tanto mais cristão quanto seríamos levados aquém do cristianismo.” Lévi-Strauss foi o antropólogo com a visão mais singular, mais radical e crítica do processo civilizatório como  entropia ecológica e cultural. A inércia institucional, a inconsciência e a incapacidade de mudar que caracteriza a civilização atual, na visão do antropólogo, podem ser entendidas como dimensões de irreversibilidade dos processos entrópicos. A ordem interna da civilização produz no meio natural uma desordem maior do que a ordem que ela cria. Esta formulação é mais radical do que a compreensão corrente da questão ecológica. Portanto, por estas razões dedicamos o presente MANIFESTO à memória de Lévi-Strauss.

I

A CRISE ECOLÓGICA E A MORTALIDADE DA ESPÉCIE

O fato fundamental, ponto de partida das considerações que seguirão, é que a crise ecológica coloca pela primeira vez para nós, ocidentais, a  mortalidade da nossa espécie e o iminente colapso da civilização. Entretanto nossa cultura, a tradição ocidental herdada, tem dificuldade em aceitar a morte individual e, decididamente, não contempla a mortalidade da nossa espécie, questão recente, instaurada pela crise ecológica. O termo latino “horror vacui”, o horror do vazio, expressa nosso medo da morte. Já o  budismo contempla a possibilidade da destruição completa da vida através do Karma coletivo da humanidade. (Vasubandhu, Abhidharmakosha, capítulo III). Portanto para nós, ecobudistas brasileiros, o atual contexto de crise nos coloca a questão da mortalidade da nossa espécie como o horizonte filosófico-religioso da nossa prática. No horizonte desta caminhada, a busca do entendimento da nossa própria cultura e do ensinamento de Buda são inseparáveis. Esta inseparabilidade é o aqui-agora imediato, local-global em que, como ocidentais, estamos constantemente. O lema do movimento ecológico “PENSAR GLOBALMENTE E AGIR LOCALMENTE” é o aqui-agora que integra e constitui a aqui-agorização do ecobudismo.

II

PÂNICO, ANGÚSTIA, MEDO, EVASÃO E IMPASSE

Constatamos a generalização dos sintomas de pânico, angústia, medo, depressão, atitudes de onipotência-impotência-indiferença e mecanismos de fuga, uso de drogas, super-ocupação, consumismo, fanatismo esportivo, cultos religiosos, cultura do corpo, regimes alimentares, diversões, espetáculos, distração na mídia, etc., tudo para evitar pensar e tomar contato com a realidade da morte e da falta de sentido. Constatamos uma inércia individual, coletiva, política e institucional que paralisa atitudes e encaminhamentos realistas e responsáveis diante da crise ecológica e civilizatória. As “soluções” apresentadas, “direitos das gerações futuras”, “desenvolvimento sustentável”, “créditos de carbono”, legislação ambiental, ministérios do meio ambiente, ONGs, discursos de políticos, novas tecnologias, etc., são placebos que tranqüilizam e dão a impressão de que são soluções. No entanto elas iludem e desviam a atenção do principal que é a mortalidade da espécie. As tentativas de entendimento e de equacionamento vigentes na nossa cultura política, o espectro ideológico esquerda-centro-direita, parecem defasadas, deficientes, insuficientes e aquém da própria crise. Por outro lado a complexidade da civilização atingiu tal grau que é uma presunção ingênua qualquer pessoa ou instituição pretender ter a solução dos seus grandes problemas. O impasse de todo este contexto de crise sem precedentes coloca o desafio de nos prepararmos, espiritual e politicamente, para os tempos difíceis, presentes e futuros. Então, o quê nós, budistas brasileiros, podemos fazer?

III

NOSSA CONDIÇÃO DE INDIGÊNCIA POLÍTICA

Os encaminhamentos recentes, dados pelos poderes deste mundo à problemática do aquecimento global, evidenciam que a humanidade está na mais total indigência política. Neste sentido o fracasso dos governos no espetáculo midiático de Copenhague é emblemático e exemplar. Trata-se do último elo de uma corrente de fracassos governamentais que se inicia na primeira Conferência Mundial Sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, organizada pela ONU e realizada em Estocolmo em 1972, passa pela ECO-92, pelo Protocolo de Kyoto e outras numerosas iniciativas abortadas por décadas de inércia governamental. A crise financeira internacional é o exemplo mais recente do impasse civilizatório e do estado de indigência política em que nos encontramos.  Em poucos meses governos nacionais com posições políticas divergentes não hesitaram em investir cerca de 15 trilhões de dólares no sistema financeiro internacional, visando evitar o colapso econômico. O fato é que especialistas estimam que políticas públicas conseqüentes em relação ao aquecimento global estariam na ordem de 100 bilhões de dólares por ano. Quantias desta ordem foram cogitadas em Copenhague. No entanto, contrastando com os meses que os governos levaram para chegar ao consenso quanto à necessidade deste investimento trilionário, quatro décadas de reconhecimento oficial da crise ecológica foram insuficientes para se chegar a um consenso mínimo em Copenhague sobre um problema infinitamente maior e mais grave.  O fato mais espantoso é que atualmente existem numerosas alternativas políticas e tecnológicas para enfrentar o aquecimento global e os demais problemas ecológicos.  No entanto estas alternativas não são levadas em conta. Nunca existem recursos públicos para a sua implementação. Vivemos o paradoxo de uma imensa riqueza de meios a serviço de uma indigência de fins.

Diante desta realidade uma agenda ecobudista impõe numerosas perguntas: O quê nós, ecobudistas, podemos fazer? Como o ensinamento de Buda pode nos ajudar a entender esta realidade? O lema do movimento ecológico “PENSAR GLOBALMENTE E AGIR LOCALMENTE” pode balizar nossa prática? Qual é e qual deve ser o papel dos governos nesta conjuntura? Quais são os fatores que atualmente estão impedindo a implementação de políticas públicas e de iniciativas civis que respondam ao desafio sem precedentes com o qual nos defrontamos?  Qual é o papel do ESTADO na atual conjuntura de crise multidimencional de uma civilização complexa, interdependente e global?  Quais as origens da crise ecológica e o que a constituem e mantêm como crise? Estas e muitas outras perguntas devem ser feitas com insistência, mesmo que fiquem sem resposta por muito tempo. As respostas a estas perguntas não são simples e nem fáceis. É neste contexto de crise e de indigência política que estamos encaminhando ao FÓRUM SOCIAL MUNDIAL o presente MANIFESTO ECOBUDISTA BRASILEIRO POR UM BUDISMO OCIDENTAL: MAITREYA, trazendo uma contribuição para a tarefa coletiva de ajudar budistas e não-budistas a pensá-las.

IV

PATOLOGIA E AMBIGÜIDADE: GLOBALIZAÇÃO X PLANETARIAZAÇÃO

“Vocês sabem que as árvores falam? Bem, elas falam. Falam entre si e falam para você se você escutar. O problema é que os brancos não escutam. Eles nunca escutaram os índios, logo suponho que não escutem outras vozes da natureza.”  (Tatanga Mani, 1871-1967)

Há séculos, não-ocidentais observam a nossa concepção de separação da natureza e nossa crença na superioridade da nossa cultura como uma doença e como uma forma de arrogância. A normalidade do nosso cotidiano, regida pela separatividade da nossa cultura eurocêntrica e antropocêntrica é vista como uma patologia. Atualmente esta concepção é insustentável e perversa para um número crescente de pessoas. A crise ecológica indica que podemos estar no limiar de uma transição sem precedentes na história humana. Ou não. Temos indícios de que já podemos estar no início de um renascimento cultural planetário, capaz de mobilizar todas as nossas energias criadoras. Mas ainda são indícios. Estamos diante do desafio de uma transição crítica da globalização para planetarização. Mas não sabemos se esta transição vai se dar. Vivemos um processo de globalização predatória  ecocida, etnocida e suicida  que tem suas origens na cultura ocidental.  Esta  globalização é um desequilíbrio entrópico que destrói a biodiversidade e a diversidade cultural através da concentração crescente do poder político e econômico. A planetarização se orienta para a conservação da biodiversidade e da diversidade cultural, a autonomia e a auto-suficiência, a descentralização do poder, a minimização da entropia.

V

CRISE ECOLÓGICA: UMA DESCOBERTA RECENTÍSSIMA DO OCIDENTE

“Os índios americanos vêm tentando explicar isso aos europeus há séculos. Mas,  como eu já disse antes, eles se mostraram incapazes de ouvir. A ordem natural vencerá e os ofensores morrerão do mesmo modo que os servos morrem quando ferem a harmonia superpovoando uma dada região. É apenas uma questão de tempo até que o que os europeus denominam ‘uma catástrofe de proporções globais’ ocorra.” (Russel Means, índio Lakota)

O ecologista José Lutzenberger, fundador da AGAPAN, considerava que a crise ecológica começou há milênios, nos impérios da antiguidade, com seus grandes sistemas de irrigação e a produção de um excedente agrícola. A crise civilizatória tem sido uma temática constante na tradição ocidental, deste os tempos de Platão, no século IV antes de Cristo, até nossos dias.  Nos séculos XIX e XX, os maiores pensadores ocidentais se ocuparam da crise da cultura ocidental-européia (Marx, Nietzsche, Husserl, Spengler, Freud, Toynbee, Heidegger, Valéry, Mumford, Sartre,  Jaspers, Sorokin,  Schweitzer e numerosos outros). Mas seus pressupostos culturais partiam da separação entre humanidade e natureza, a crise ecológica da civilização, na sua concepção antropocêntrica de crise, sem perceber que a própria separação pressuposta era constitutiva da crise. A questão ecológica começou a ser objeto de questionamento, estudo e reflexão no ocidente somente a partir da segunda metade do século XX. A publicação da obra Os Limites do Crescimento (1972) teve um impacto mundial: pela primeira vez foi colocado cientificamente o dilema da inviabilidade do crescimento econômico ilimitado e da explosão demográfica em um planeta de dimensões finitas como é a Terra. Foi um marco. A Era Espacial inaugurou a observação da Terra a partir de imagens fornecidas por satélites artificiais, contribuindo  para a formação da consciência ecológica.

VI

A TERRA AINDA É CHATA

“A Terra é azul.” (Yúri Gagarin, russo, primeiro astronauta a ver a Terra do espaço).

“Estou firmemente convencido de que foi criada uma consciência cósmica. Pelo menos na América se deu o caso que as fotos que os astronautas trouxeram da Lua causaram uma tremenda impressão nos ecólogos daqui. Por quê? Elas nos mostraram pela primeira vez um quadro da nossa minúscula Terra com suas limitadas fontes de matéria-prima, sua tênue capa atmosférica e sua vulnerabilidade a abusos. O homem pode ver aí a nave espacial Terra com suas população de três e meio milhões de astronautas e um sistema de suporte de vida muito fácil de envenenar. Tudo aquilo que os ecólogos vinham pregando há anos ficou subitamente bem aparente.” (Werner Von Braun, chefe da NASA, começo da Era Espacial).

Portanto, consciência ecológica é um acontecimento recentíssimo na história intelectual da nossa cultura. Apesar da Era Espacial, a ordem social da nossa civilização, nossas instituições, nossas crenças e a nossa concepção de política são tributárias de uma época em que ainda se acreditava que a Terra era chata. Nosso projeto de civilização, baseado na separação entre humanidade e natureza, evidencia uma deficiência, estreiteza, unilateralidade e carência nos próprios fundamentos da tradição ocidental herdada. Entretanto, mesmo atualmente, já no início do século XXI, ainda são poucas as lideranças políticas, econômicas e intelectuais que tem uma compreensão da gravidade e do caráter sem precedentes da crise ecológica, sobretudo no que diz respeito às suas origens nos nossos fundamentos culturais e nas nossas instituições. A inconsciência dos fundamentos eurocêntricos da crise ecológica determina o seu diagnóstico equivocado, superficial e periférico. Até hoje nossos maiores artistas e intelectuais, nossa comunidade científica, nossos tecnólogos, nossas lideranças políticas e empresariais equacionam a crise ecológica a partir dos efeitos e não das causas. Conseqüentemente, consideramos que a crise ecológica não pode ser entendida nem diagnosticada no interior do paradigma eurocêntrico-antropocêntrico, causador da própria crise.

VII

OS LIMITES EUROCÊNTRICOS DO MOVIMENTO ECOLÓGICO

“É estranho, mas ao tentar encontrar soluções para os problemas dos índios, as autoridades consultaram todas as pessoas, menos os índios. Muitos de nós poderíamos oferecer bons conselhos nesta questão.” (Tatanga Mani, 1871-1967)

A visão da problemática ecológica, os objetivos,  métodos, a caminhada e a institucionalização  da problemática trazida pelo movimento ecológico apresentam sinais de esgotamento que configuram uma inércia e um impasse a ser avaliado. A concepção eurocêntrica que preside a questão ambiental corresponde à crítica de Tatanga Mani: “Talvez não tenha ocorrido a muitos brancos que as pessoas vermelhas, pretas e amarelas podem ter boas idéias sobre como satisfazer as necessidades do mundo.” A institucionalização da questão ambiental tal como se dá atualmente em todo o mundo, engessa, limita, exclui e não resolve os problemas ecológicos. Onde estão as culturas não-ocidentais e as culturas tradicionais? Consideramos que a cultura ocidental gerou uma problemática ecológica que exige mudanças radicais no âmbito das instituições e sem precedentes na história. Não há possibilidade de superação dos impasses de um novo projeto de civilização – e é disto que se trata – sem que as próprias instituições sejam repensadas como fatores entrópicos e inerciais constitutivos da crise ecológica. Nossa cultura política ainda é muito primitiva. A questão social tem bem pouco tempo era vista não como um problema político, mas como uma questão de polícia. Temos que deslocar a visão da ciência experimental da natureza para o campo das instituições e encará-las como experimentos sociais falíveis e provisórios, geradores de novos conhecimentos. A crise ecológica e civilizatória e as mudanças necessárias para a sustentabilidade são tão incríveis que, nas palavras de René Dubos, poderiam até causar pânico. Mas esta mutação está a exigir a redefinição do papel do Estado no monitoramento das mudanças, pois a complexidade da civilização não pode dispensar esta instituição. Nossa cultura confunde valor com preço. Conseqüentemente, a comercialização de créditos de carbono e  a monetarização da questão ambiental parece ser a continuação do enfoque mercantilista da natureza, causa da própria crise ecológica. ETC.ETC.ETC.

VIII

A “ENTROPIOLOGIA” E A COMUNIDADE CIENTÍFICA

No livro Triste Trópicos, Lévi-Strauss propôs a criação de uma nova ciência, que ele considerava muito mais importante e urgente do que a sua especialidade científica: a  “entropiologia”. Esta ciência teria como objeto o estudo dos processos de degradação irreversível da ordem e da complexidade biológica e cultural que constituem o processo de desenvolvimento da civilização. Sintomaticamente, até hoje a comunidade científica não levou a sério a proposta  de criação da “entropiologia”, deixando de desenvolver uma ciência que, mais do que qualquer outra, poderia nos apontar saídas para a crise em que nos encontramos. Portanto, dirigimos à comunidade científica o apelo para que a “entropiologia”, por ele sugerida,  seja levada seriamente em consideração de maneira a se constituir como uma nova ciência. Na perspectiva ecológica de um novo projeto de civilização, diante das limitações dos à priori ideológicos e seus compromissos com a ordem social antropocêntrica e eurocêntrica, a entropiologia como conhecimento de diferentes formas de redução da entropia pode vir a proporcionar critérios fundamentais e objetivos para a avaliação e desenho de novas instituições.  O budismo tem uma concepção do que é condicionado e convencional de uma grande riqueza e importância para a compreensão da interdependência, da não-separatividade e da entropia. É necessário reunir budistas, ecologistas e pessoas interessadas na relação budismo-movimento ecológico e o que se poderia denominar de “institucionalismo experimental”.

O MELHOR LUGAR DO MUNDO É AQUI E AGORA

“Mas por que no nosso céu não existem animais?” (Albert Schweitzer, prêmio Nobel da Paz em 1954, organista, teólogo, médico e filantropo).

Nós, budistas brasileiros e ocidentais, demos um passo, rompendo o círculo vicioso do eurocentrismo, ao descobrir nos fundamentos do budismo um outro sentido para a condição humana neste planeta. O ensinamento fundamental de Buda é a não-dualidade e a inseparabilidade  homem-natureza. O budismo é precioso para nós porque desconhece e não reconhece a separação entre religiosidade e cientificidade que dilacerou o ocidente, “Acreditar que um Deus nos criou: eis o que nos tornou loucos”, afirmou Alan Watts. “Não é o budismo que deve prestar contas à ciência, mas é a ciência que deve prestar contas ao budismo”, escreveu Carlo Formichi. A vida na Terra está sendo destruída com um dilúvio de justificativas, explicações e informações. Mas nenhuma explicação é possível e necessária para o fato de estarmos vivos. A suprema dignidade da vida é perdida quando se atribui um fundamento e uma finalidade à condição humana. O budismo afirma a raridade e o privilégio de sermos humanos no interior de uma incomensurável multidão de outras formas de vida. O simples fato bruto da nossa existência já é uma condição de plenitude e de dignidade que não pode ser degradada com explicações. Descobrimos que não somos separados da natureza, de outras culturas, da nossa própria cultura e nem de nós mesmos. Começamos a entender que um outro mundo não apenas é possível, mas a condição indispensável para a sobrevivência da humanidade e de tudo o que a civilização produziu de melhor e de mais dignificante para a condição humana.

AGENDA

Este Manifesto tem como objetivo ser um momento inaugural de um MOVIMENTO muito mais amplo, em que através de encontros e seminários, sigamos rumo à construção de um pensamento-ação ecobudista. Como sugestão para iniciarmos esta caminhada conjunta, levantamos alguns temas para a organização de uma AGENDA ECOBUDISTA que terá início neste ano, e que esperamos possa inspirar todas as comunidades budistas a contribuírem com reflexões e ações para cuidar de nosso planeta e beneficiar a todos os seres.

ESPIRITUALIDADE BUDISTA E CRISE – EDUCAÇÃO ECOBUDISTA – TECNOLOGIAS INTELIGENTES – RETIRADA ESTRATÉGICA: CUIDANDO DO PLANETA – AUTOCRÍTICA DO BUDISMO: POR UM BUDISMO BRASILEIRO –  BUDISMO E ECUMENISMO – PÂNICO E DEPRESSÃO – ENTROPIA E ENTROPIOLOGIA – ETC.

Celso Marques Hen-Sho, Ex-Presidente e atual Conselheiro da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, AGAPAN, membro da comunidade Budista Soto Zen Shu, São Paulo, Brasil.

Joaquim Monteiro, Monge Shaku Shoshin-Jodo Shinshu Honpa Honganji.

Ana Luiza Costa Muso, Discípula do Mestre Zen Daigyo Moriyama, Abade do Zuigakuin International Zen Center, Japão.

APOIAM:

Eduardo Finardi, Presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, AGAPAN.

Chagdud Khadro e Jigme Rinpoche, Chagdud Gonpa.

Lama Padma Samten, Centro de Estudos Budistas Bodisatva – CEBB.

Tam Huyen Van (Cláudio Miklos) – Praticante budista leigo, escola zen vietnamita InterSer (Tiep Hien) – Presidente do Colegiado Buddhista Brasileiro.

Rev. Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves (Shaku Riman), Historiador, Missionário da Ordem Otani de Budismo Shin.

Monja Isshin Havens – Sanga Águas da Compaixão (Jisui Zendo, Comunidade Zendo Sul).

Enio Burgos, médico, escritor, discípulo de Thich Nhat Hanh e SS o Dalai Lama, Presidente da Associação Meditar e Editora Bodigaya.

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