Textos de Mestre Dogen (6)


Bodaisatta Shishôhô
Os Quatro Métodos de Harmonização dos Bodhisatva
Dogen Zenji – Shôbôgenzô

Os quatro métodos de harmonização dos bodhisatvas são: doação, fala gentil, ação benéfica e cooperação.

Doação significa não cobiçar, não ser ganancioso. Em termos mundanos se diz que não ser ganancioso significa não bajular. Se alguém reinar sobre os cinco continentes, fornecer boa educação ao povo é a prática de não cobiçar. Doação é, por exemplo, como renunciar a tesouros para dá-los para estranhos. Oferecer flores de uma montanha distante a um Buda, distribuir tesouros de vidas passadas para o beneficio dos seres – em termos de ensinamento e em termos das coisas, em ambas ações existem as virtudes inerentes à doação.

Apesar de no fundo ser verdade que nada pertence a ninguém, isso não nos impede de dar. Não importa o quão insignificante seja o objeto dado – o que importa é que o esforço seja genuíno. Quando deixamos o Caminho para o Caminho, alcançamos o Caminho. Alcançando o Caminho, o Caminho é necessariamente deixado ao Caminho. Quando os bens são deixados para os bens, os bens infalivelmente se tornam doação. O eu dá para o eu, o outro dá para o outro. O poder causal da doação vai longe, chegando até aos céus e aos sábios e santos. O motivo para dizer isso é que a pessoa se tornou um recipiente do dar e formou certa afinidade. A respeito disso o Buda disse: “Quando uma pessoa que dá entra em um grupo, já no primeiro olhar as pessoas reconhecem a bondade de seu coração”.

Portanto nós devemos dar mesmo uma única frase ou um único verso do ensinamento. Isso se tornará uma boa semente nesta vida e em vidas futuras. Nós devemos dar mesmo uma única moeda ou um pedacinho de grama – isso fará as sementes do bem germinarem. O Darma também é um tesouro, e os tesouros materiais também são Darma. Tudo depende da vontade e da aspiração.

De fato já ocorreu um caso em que uma pessoa contribuiu para o bem-estar de outra lhe dando fios de barba, e outro caso em que um menino se tornou rei por ter presenteado areia ao Buda. Eles não ansiaram pelo agradecimento dos outros, mas apenas fizeram o seu melhor. Construir uma ferrovia ou uma ponte são também atos da generosidade transcendental da doação.

Quando nós aprendemos bem a doar, nascer e morrer também são doar. Todo trabalho produtivo é doar. Confiar flores ao vento e pássaros à estação também são atos meritórios de doação. O princípio comprovado pelo rei Asoka dando meia manga para alimentar um grupo de monges é que isso é um grande ato de doação. Devemos cuidadosamente estudar esse princípio. Não se trata apenas de fazer o esforço correto, mas também é preciso tomar cuidado para não perder a oportunidade certa.

Verdadeiramente, é porque as virtudes da doação nos são inerentes que nós agora alcançamos a nós mesmos. O Buda disse, “Isso pode ser usado para si mesmo – mais ainda, pode ser dado aos seus próprios pais, esposa e filhos”. Então nós sabemos que mesmo usar algo para si mesmo é uma porção de doação; dar a seus pais esposa e filhos também é doação. Se nós pudermos dar mesmo um cisco de poeira com um coração de altruísmo, apesar de isso ser algo que nós mesmos fazemos, devemos silenciosamente nos alegrar com isso, pois acabamos de praticar corretamente uma das virtudes dos Budas, pois acabamos de praticar um dos princípios dos bodhisatvas.

O que é difícil mesmo é transformar as mentes dos seres vivos: o que se pretende com a doação, qualquer que seja a coisa dada, é transformar as mentes dos seres vivos e ajudá-los a atingir a iluminação. No início, isso deve ser feito por meio da doação. É por isso que o primeiro dos seis caminhos transcendentais [paramitas] é a doação. Não devemos calcular a grandiosidade ou pequenez da mente transformada, nem a grandiosidade ou pequenez da coisa dada. Entretanto, há um tempo em que a mente transforma as coisas, e há a doação na qual as coisas transformam a mente.

Fala gentil significa que ao olhar para todos os seres nós devemos despertar em nós uma mente de atenção, amor, e cuidado máximos. Isso é a ausência da fala áspera. Na convenção social comum existe a etiqueta de perguntar “como vai?”. No Budismo, usamos a expressão “te cuida” e também a conduta ética de perguntar como a pessoa está. Fala gentil é falar com a profunda intenção de cuidar gentilmente de todos os seres da mesma maneira que nós cuidaríamos de um bebê.

Devemos louvar aqueles que são virtuosos e ter compaixão pelos que não são. Uma vez que nos entreguemos à fala gentil, gradualmente iremos aperfeiçoar a fala gentil; assim, uma fala gentil até então desconhecida aparecerá. Enquanto estivermos vivos, devemos alegremente praticar a fala gentil; com isso nós jamais regrediremos no Caminho, vida após vida. A fala gentil é a fonte da superação da inimizade e da harmonização dos governantes. Ouvir diretamente palavras gentis ilumina o semblante e agrada o coração; ouvir palavras gentis ditas em nossa ausência tem um efeito ainda mais profundo. Saibam que a fala gentil provém de um coração gentil, e um coração gentil tem a sua semente na boa vontade. Saiba que a fala gentil tem o poder de virar os céus. Não se trata apenas de elogiar os virtuosos.

Ação benéfica significa inventar meios de beneficiar a todos os seres. Por exemplo, olhando para um estrada, longe e perto, podemos inventar meios de beneficiar aos outros. Ao ver uma tartaruga cansada ou um pássaro enfermo, devemos ter compaixão e ajudá-los. Devemos ajudar uma tartaruga cansada ou um pássaro enfermo sem esperar o seu agradecimento, mas apenas pelo desejo de fazer o que é benéfico.

Os tolos pensam que o seu próprio benefício será reduzido se eles pensarem antes no benefício dos outros. Tal não é o caso. A benevolência é universal e beneficia a todos. Antigamente existiu um soberano que interrompia o seu próprio banho no meio para ajudar alguém que dele precisasse. Ele também estava sempre disposto a ajudar e educar pessoas de outros países. Então, nós devemos ajudar igualmente aqueles que são hostis e aqueles que são amigáveis. Isso será benéfico para nós e para os outros. Se alguém desenvolver esse coração, o princípio da ação benéfica ser inerentemente não-regressiva será beneficamente representado, mesmo pelas plantas e árvores, água e vento. Nós devemos nos esforçar de todo coração para libertar aos ignorantes.

Cooperação é não-oposição. É não se opor a si mesmo e não se opor aos outros. É como o Buda, que manifestou-se em um corpo humano em consideração a nós. O Buda também pode se manifestar em outros mundos que não o humano. Quando nós compreendemos a cooperação, o eu e os outros são uma só assimdade. A sua música e vinho acompanham as pessoas, acompanham os seres celestiais, acompanham os espíritos famintos. As pessoas andam com música e vinho, e a música e vinho andam com a música e vinho. As pessoas andam com pessoas, os seres celestiais andam com seres celestiais, os espíritos famintos andam com espíritos famintos – tal lógica aparece, tal lógica é o aprendizado da cooperação.

Por exemplo, a prática da cooperação é um “jeito”, um padrão, uma atitude. Depois de ver os outros sendo o eu, devemos ver o eu sendo os outros. Com o tempo, o “eu” e os “outros” tornam-se um só.

Como disse um antigo filósofo: “O oceano não rejeita a água – por isso ele se tornou imenso. As montanhas não rejeitam a terra – e é por isso que elas podem se tornar tão grande. Um soberano iluminado não rejeita as pessoas – portanto o seu povo pode tornar-se populoso.” Saiba, ademais, que a virtude da água não rejeitar o oceano também é completa. Por essa razão, as águas se reúnem e se tornam um oceano, a terra se acumula tornando-se uma montanha. Nós também sabemos implicitamente que porque o oceano não rejeita o oceano, ele forma um oceano e cria a sua imensidão. Porque a montanha não rejeita a montanha, ela forma a montanha e a sua altura. Porque o soberano iluminado não rejeita as pessoas, ele faz delas uma comunidade. Um soberano iluminado não rejeita as pessoas, mas isso não significa que não há recompensas e punições. Mas, apesar de haver recompensas e punições, não há o rejeitar pessoas.

Em tempos passados de incorrupta honestidade, as nações não tinham recompensas e punições. Isso é assim porque as recompensas e punições daquele tempo não podem ser comparadas às de hoje. Entrtanto, mesmo hoje devem existir pessoas que fazem o que é certo sem buscar nenhuma recompensa para isso. Tal atitude é inconcebível para o ignorante.

Pelo fato de um soberano iluminado ser sábio, ele não rejeita pessoas. O povo sempre forma uma nação – apesar das pessoas buscarem um soberano iluminado, como a maioria delas não sabe o motivo pelo qual um soberano iluminado é um soberano iluminado, elas apenas se rejubilam por não serem rejeitadas por um soberano iluminado, mas elas mesmas não sabem como não rejeitar um soberano iluminado. Portanto, como existe a lógica da cooperação tanto nos soberanos iluminados como nas pessoas ignorantes, a cooperação é o compromisso prático do bodhisatva. Nós devemos olhar para todos os seres com  uma suave aprovação.

Adaptação para o Português de Giovanni Dienstmann,
baseada na tradução inglesa de Thomas Cleary
e na tradução para o português de Pergentino

Textos de Mestre Dogen (4)


Kangin
A Leitura dos Sutras
Dogen Zenji
Shôbôgenzô

Na prática e iluminação do despertar perfeito e supremo, usamos às vezes o ensinamento de um mestre, às vezes o ensinamento nos sutras. “Mestre” é o inteiro ser dos Budas e Patriarcas; “sutras” é o inteiro ser dos sutras. Logo, temos o ser de todos os sutras. “Ser” não tem identidade limitada – é visão ativa iluminada, e punhos vivos. Lembrar, ler, cantar, copiar, receber e possuir os sutras compõem o conjunto de prática e iluminação dos Budas e Patriarcas.

Mas é difícil encontrar os sutras budistas. No mundo inteiro raramente se ouve o nome dos sutras. Mesmo entre Budas, Patriarcas e seus descendentes é difícil ouvir só o nome. Se você não for Buda ou Patriarca não pode ver, ouvir, ler, cantar ou compreender os sutras.

Estudar aos poucos Budas e Patriarcas nos capacita a estudar os sutras. Então, as faculdades de ouvir, ver, gostar, cheirar e compreender a inteireza de corpo e mente realizam o ouvir, receber, possuir, explicar, e etc. dos sutras. Quem só procura fama ou expõe doutrinas de ímpios jamais pode praticar os sutras budistas. Transmitidos por árvores e pedras, tais sutras ficaram conhecidos dos campos de arroz aos povoados. Eles foram proclamados em toda parte, pelos reinos da terra e no universo inteiro.

Fazia muito tempo que o Grande Mestre Yakusan Kudo não dava um sermão do Darma. O secretário-geral do mosteiro pediu, “Todos os monges estão esperando para ouvir seus ensinamentos de compaixão”. Yakusan respondeu, “Bata o gongo e convoque a assembléia.” Isto feito, Yakusan entrou no Salão do Darma, sentou-se, ficou em silêncio por um bom momento, levantou-se e voltou aos seus aposentos. O secretário-geral veio atrás dele, dizendo, “Mas o senhor concordou em falar e está saindo sem dizer uma só palavra. Por que?” Yakusan disse, “Os sutras têm professores de sutras e as doutrinas do abidarma têm os estudiosos do abidarma. Por que ficar surpreso com a ação deste velho monge?”

Yakusan quis dizer que punhos têm mestres de punhos e visão iluminada tem mestres de visão iluminada. Porém, o secretário-geral devia ter dito, “Não fiquei surpreso com a sua ação. Aliás, que tipo de mestre é o senhor?”

Certa vez, Hotatsu, monge cuja ocupação principal era cantar continuamente o Sutra do Lotus, foi ver o Patriarca Daikan (Eno) do Monte Sokei em Choshu. O Patriarca recitou este verso:
“Se a mente está iludida, o Sutra do Lotus nos gira.
Se a mente está iluminada, giramos o Sutra do Lotus.
Por mais que cantemos, se não esclarecermos o ser
Palavras e letras vão obstruir a essência.
Pensamento sem pensar é verdadeiro.
Pensamento consciente é falso.
Abandone existência e não-existência
E vá sempre no carro-de-boi branco (Caminho de Buda).”

Assim, se a mente está iludida, o Sutra do Lotus nos gira; se a mente está iluminada, nós o giramos; e se transcendermos ilusão e iluminação, aí o Sutra do Lotus gira o Sutra do Lotus.

Ao ouvir este verso, Hotatsu ficou tão feliz que recitou seu próprio verso:
“Passei a vida cantando sutras
E agora um verso de Sokei me fez esquecê-los todos.
Sem esclarecer a emergência de Sakiamuni neste mundo
Não podemos ser liberados da transmigração.
Há ovelhas, cervos e carros-de-boi;
Começo, meio e fim estão cheios de coisas boas.
Quem sabe que dentro desta casa em chamas (o corpo)
Encontra-se o reino do Darma original?”

Então o Patriarca disse, “De agora em diante você é o monge que memorizou os sutras.”

Precisamos saber que há um monge desses no Caminho Budista. É isto que o antigo Buda Sokei mostrou diretamente. “Memorizar” não é consciência nem inconsciência, nem existência ou não-existência. Através de kalpas sem fim devemos continuar e memorizar os sutras dia e noite; de sutra a sutra, não há nada a não ser sutras.

Prajnatara, o vigésimo-sétimo Patriarca da Índia Oriental foi convidado pelo rei para uma refeição. O rei lhe perguntou, “Todo mundo está proclamando uma profusão de sutras, menos você. Por quê?” Prajnatara disse, “Perdoe minhas pobres palavras, mas eu diria assim: Quando eu expiro a minha respiração não é afetada nem por eventos nem por condições; quando eu inspiro eu não lido no mundo de formas condicionadas. Continuamente, eu proclamo o sutra da talidade; ele tem milhões e milhões de volumes, não apenas um ou dois.”

Prajnatara plantou as sementes (do Zen) na Índia Oriental. Ele foi o vigésimo-sétimo Patriarca descendente de Mahakasyapa. Ele transmitiu os pertences dos Budas – as cabeças, os olhos iluminados, os punhos, as narinas, os bastões, as tijelas, os mantos, os ossos, tutano, tudo deles. Ele é nosso Patriarca e nós somos seus descendentes. A essência da frase de Prajnatara é que não apenas sua respiração não é afetada por condições externas, tampouco as condições externas são afetadas. Condições externas como cabeça e olhos, corpo e mente não são afetadas por condições externas.

“Não afetadas” aqui significa “totalmente afetadas” (numa identidade de opostos). Embora respiração exalada seja condição externa, ela não é afetada por condições externas. Embora o significado de inalar e exalar, antes desconhecido, tenha assim permanecido por kalpas incontáveis, agora ele foi revelado pela primeira vez através das expressões “não lidar no mundo da forma” e “não afetado por condições externas.” Em condições externas temos a oportunidade de estudar “inalar”. Esta ocasião não existe no passado ou futuro mas no presente exterior.

O mundo da forma condicionada é o dos cinco skandas: forma, percepção, idealização, volição e consciência. Não lide nos cinco skandas. Você está num mundo onde os cinco skandas não aparecem. O principal aqui é que os sutras declamados não sejam apenas um ou dois mas milhões e milhões. “Milhões e milhões” é um número enorme mas também tem outro significado. Uma respiração na qual não tocamos o mundo de forma condicionada contém milhões de volumes. Contudo, isso não é nem uma grande quantidade de sabedoria nem um estado de liberdade. Isso transcende a posse ou não-posse de conhecimento e sabedoria. É simplesmente a prática e iluminação dos Budas e Patriarcas, na pele, carne, os ossos, tutano, olhos iluminados, punhos, cabeça, narinas, bastões e espanta-moscas deles.

Certa vez o Grande Mestre Shinsai recebeu o pedido de uma velha devota que tinha feito volumosa doação, para que lesse o Tripitaka inteiro. Joshu desceu do seu assento e caminhou em torno dele uma vez. Então, disse ao mensageiro da velha, “Acabei de ler o Tripitaka.” O mensageiro voltou e contou à mulher o que tinha acontecido. Ela disse, “Pedi a ele que lesse todo o Tripitaka. Por que ele leu só a metade?”

Agora podemos ver claramente que tanto o Tripitaka inteiro quanto a metade do Tripitaka são os três sutras (os três veículos) da velha. “Acabei de ler o Tripitaka” é a compreensão que Joshu tem dos sutras. Em geral, ler o Tripitaka é Joshu andar em torno do assento e o assento andar em torno de Joshu. Joshu anda em torno de Joshu; o assento anda em torno do assento. Ainda assim, a leitura do Tripitaka não é apenas andar em torno do assento, e nem o assento anda de roda.

Há outro caso parecido. Grande Mestre Jinsho, cujo nome no Darma era Hosshin, foi discípulo do Grande Mestre Daiê de Chokeiji. Certa vez uma velha discípula fez uma doação e pediu-lhe que lesse o Tripitaka completo. Daisai se levantou, caminhou em torno do assento e disse ao mensageiro da mulher, “Acabei de ler o Tripitaka.” O mensageiro voltou, contou o que tinha acontecido e a velha disse, “Pedi a ele que lesse todo o Tripitaka. Por que ele leu só a metade?”

Neste caso, não devemos estudar a caminhada de Daisai em torno do assento nem a do assento em torno de Daisai. Ele não estava tentando mostrar o punho perfeito (de Buda) e a visão iluminada. O círculo dele era o círculo do mundo do Darma. No entanto, a velha tinha capacidade de compreendê-lo ou não? “Ele leu só a metade” não basta, ainda que ela o tenha transmitido do seu mestre. Ela deveria ter dito, em vez disso, “Pedi a ele que lesse todo o Tripitaka. Por que ele desceu tão prontamente do assento?” Ainda que tivesse dito isto sem pensar, ela seria uma possuidora de visão iluminada.

Certa vez um ministro convidou o Patriarca Tozan para uma refeição. Feita a doação, o ministro pediu a Tozan que lesse o Tripitaka. Tozan desceu do assento e inclinou-se diante do ministro. O ministro devolveu o cumprimento. Aí, Tozan levou o ministro para dar uma volta em torno do assento. Tozan inclinou-se outra vez, esperou um momento, e perguntou, “Você compreende?” O ministro respondeu, “Não, não compreendo.” Tozan disse, “Eu lhe li o Tripitaka. Por que não compreende?”

O significado de “Eu lhe li o Tripitaka” deve ser claro. Não devemos aprender que andar em volta do assento é ler o Tripitaka, nem devemos aprender que ler o Tripitaka é igual a andar em torno do assento. Devemos ouvir atentamente as palavras do Patriarca.

Uma vez, quando meu finado mestre, um Buda antigo, vivia no Monte Tendo um peregrino da Coréia veio fazer uma oferenda e pedir a todos os monges que recitassem alguns sutras para ele. Meu mestre contou o caso acima sobre Tozan. Terminada a narrativa, meu mestre desenhou um círculo no ar com seu espanta-moscas, “Hoje eu li o Tripitaka para você”, disse, e jogando no chão o espanta-moscas saiu da sala.

Deveríamos examinar com cuidado as ações do meu finado mestre. Elas são incomparáveis. Quando leu o Tripitaka ele usou um olho brilhante ou só meio? Precisamos esclarecer a maneira pela qual Tozan e meu mestre usaram visão iluminada e língua de Buda.

O Patriarca Yakusan Kudo não costumava permitir leitura de sutra. Um dia, no entanto, um monge o encontrou diante de um livro aberto. O monge disse, “Mas, se o senhor não nos permite ler os sutras, por que está lendo sutras.” “Estava precisando de alguma coisa para descansar os olhos.” E o monge: “Quer dizer que eu posso usar a mesma desculpa?” O mestre respondeu, “Se você olhar para os sutras vai furar um buraco na capa de couro.”

O significado de “Estava precisando de alguma coisa para descansar os olhos” é que Yakusan tornou-se o próprio objeto. Isto significa abandonar visão iluminada, abandonar os sutras. O olho está obstruído e torna-se o olho obstruído. Há uma obstrução ativa atrás do olho; adicionamos mais uma pele à pele que cobre o olho. Com “obstrução” podemos iluminar o olho e vice-versa. Logo, se não for o sutra da visão iluminada não podemos obter o mérito inerente ao olho obstruído. “Furar um buraco na capa de couro” significa que a vaca inteira é couro. O couro, a carne, os ossos, o tutano, a cabeça, os chifres e as narinas formam suas funções vitais. Quando aprendemos sobre o mestre a vaca vira visão iluminada. É isto que significa repousar os olhos nalgum objeto. Aqui, visão iluminada transforma-se na vaca.

O Mestre Zen Yabu Dosen disse, “Venerar todos os incontáveis Budas nos dá imensa alegria. Mas isso vale mais do que ler os antigos ensinamentos? Os sutras são sinais pretos em papel branco. Abra os olhos e olhe para eles!”

Devemos saber que venerar os Budas antigos e ler os ensinamentos antigos tem a mesma virtude e felicidade. Não há felicidade e virtude além disso. “Ensinamentos antigos” significa sinais pretos em papel branco, mas quem conhece realmente os ensinamentos antigos? Precisamos estudar este princípio cuidadosamente.

Uma vez, um dos monges do Grande Mestre Kokaku do Monte Ungo estava lendo um sutra no seu quarto. O mestre chamou pela janela, “Que sutra você está lendo?” O monge respondeu, “O Sutra Vimalakirti-nirdesa.” O mestre disse, “Eu não perguntei sobre o sutra que você tem nas mãos. Que sutra você está lendo?” O monge foi repentinamente iluminado.

O “Que sutra você está lendo?” de Kokaku transcende tempo e é extremamente profundo; não pode ser posto em palavras. É como encontrar uma cobra venenosa na estrada; aí emerge a questão central do sutra. Sempre que encontrarmos um mestre seremos capazes de explicar o Sutra Vimalakirti sem erro.

De maneira geral, a leitura dos sutras deve basear-se no método usado por todos os Budas e Patriarcas. Eles usam sua visão iluminada. Naquele momento todos os Budas e Patriarcas se tornam Budas; eles eles proclamam o Darma e Buda. Se você não ler os sutras assim, você nunca verá a cabeça ou face dos Budas e Patriarcas.

Nas comunidades atuais dos Budas e Patriarcas há muitas ocasiões de leitura de sutras. Lêem-se sutras para o benefício de todos os seres quando um praticante leigo solicita, há recitações diárias regulares, recitações individuais de monges mais aplicados, etc. Há também um tipo de canto especial para o funeral de um monge.

Quando um praticante leigo vem ao templo e pede aos monges que cantem os sutras, o procedimento é o  seguinte: Depois do desjejum o monge chefe levanta uma placa em frente do mosteiro e do aposento dos monges anunciando a recitação. Um pano usado para prostrações é estendido diante da estátua de Manjusri. Na hora certa o gongo do mosteiro é batido, uma sequência ou três sequências, conforme a instrução do condutor da cerimônia. Quando soa o gongo, o condutor conduz todos os outros ao salão e eles sentam-se de frente. Todos devem estar usando o kesa. Em seguida entra o abade, faz uma reverência diante da estátua de Manjusri, e toma o seu lugar. Então, os ajudantes trazem os sutras, que devem ser preparados de antemão e organizados corretamente no seu invólucro.

Os sutras devem ser trazidos numa caixa especial ou numa bandeja. Todos os monges, segurando os sutras com reverência, começam a cantar. Então, o mestre-de-visitas conduz ao salão o praticante leigo, que deve trazer consigo um queimador de incenso colocado com antecedência pelo monge assistente à porta do templo. O sinal para entrar é dado pelo mestre-de-visitas. A entrada é feita pelo lado sul, o mestre-de-visitas à frente e o visitante atrás. Este oferece incenso à estátua de Manjusri e faz três prostrações enquanto segura o porta-incenso. Durante as prostrações do praticante leigo o mestre-de-visitas fica de pé no canto de cima do pano de prostração, virado para o sul com as mãos cruzadas sobre o peito. Quando termina suas prostrações o leigo vira-se para a direita e, de frente para a abade, faz uma saudação. O abade permanece sentado, pega o sutra e faz um gashô. Então o visitante dirige uma saudação para o lado norte. Em seguida, ele caminha em torno da sala, a partir do assento do abade. O mestre-de-visitas conduz o giro. Mais uma vez o praticante leigo, diante da imagem de Manjusri, ainda segurando o porta-incenso, faz uma saudação. Enquanto isso o mestre-de-visitas fica de pé na entrada, virado para o norte, com as mãos cruzadas no peito.

Depois de fazer a saudação a Manjusri o visitante segue o mestre-de-visitas para fora do mosteiro e caminha uma vez em torno dele. Ele entra novamente, faz três prostrações para Manjusri, dirige-se ao assento que lhe é indicado e acompanha a leitura dos sutras. Seu assento deve ser ou ao lado do pilar à esquerda de Manjusri, ou ao lado do pilar do lado sul de frente para o norte. Depois que o praticante leigo senta-se o mestre-de-visitas faz uma reverência e senta-se também. Algumas vezes um monge canta enquanto o visitante caminha em torno do mosteiro. Este monge deve sentar-se à esquerda ou à direita de Manjusri, conforme a circunstância. Apenas incenso da mais alta qualidade, como jinko ou senko, deve ser ofertado. O incenso deve ser preparado pelo leigo. Quando este caminha em torno do mosteiro todos os monges devem manter as mãos palma em palma, em gashô.

Em seguida, faz-se a oferenda. A quantidade ou tipo de doação depende do praticante. Às vezes oferecem-se leques, algodão, coisas assim. O praticante leigo pode fazer a oferenda ele mesmo, ou isso pode ser feito pelo secretário-geral ou um monge assistente. A oferenda deve ser colocada diante dos monges e não entregue a eles diretamente. Todos os monges devem fazer gashô quando a oferenda é feita. (Às vezes a doação é trazida antes da refeição da manhã. Neste caso bate-se na placa de avisos e o monge chefe entra com a doação. O mérito da oferenda do praticante leigo deve ser anotado por escrito e colocado na coluna à esquerda de Manjusri.)

Quando os sutras são cantados no mosteiro isso deve ser feito numa voz baixa, e não alta. Às vezes os sutras não são cantados em voz alta, são simplesmente abertos para que os monges olhem a escrita. Neste caso, geralmente usamos sutras como o Sutra do Diamante, vários capítulos do Sutra do Lotus, ou o Sutra da Luz Dourada (Suvarnaprabhasa-sutra, sânscrito), etc. Uma grande quantidade desses sutras deve ser mantida no mosteiro.

Cada monge dve ter sua própria cópia. Terminada a recitação os sutras devem ser postos numa caixa ou bandeja especial carregada por um ou dois monges. Neste momento, os monges devem fazer gashô e recitar as orações finais em voz baixa.

Se os sutras devem ser recitados fora do mosteiro o secretário-geral pode fazer o papel do praticante leigo, da maneira acima descrita, para lidar com o incenso, fazer as prostrações, caminhar e arranjar a doação. Ele deve segurar o porta-incenso da maneira indicada. Um monge também pode pedir que os sutras sejam lidos. Neste caso, ele age da mesma maneira que o praticante leigo.

No aniversário do imperador, os procedimentos para leitura dos sutras são os seguintes (a leitura deve começar um mês antes do aniversário): se o aniversário for, por exemplo, em quinze de janeiro, a leitura dos sutras deve começar em quinze de dezembro. Nesse dia não há sermão do Darma. Diante da imagem de Shakiamuni, no Salão de Buda, constroem-se duas plataformas de frente para o leste e correndo do norte para o sul. Entre as duas plataformas coloca-se uma prateleira para os sutras. Nela coloca-se um sutra, como o Sutra do Diamante, o Sutra Nino (Ninnô), o Sutra do Lotus, ou o Sutra da Rei Suprema da Luz Dourada (Suvarna Prabhavasottama-raja Sutra). Todos os dias alguma pequena especialidade deve ser servida a todos os monges: uma massa, uma sopa, ou um doce. O doce deve ser colocado em tijela com palitos, não com colher. Coma-o enquanto os sutras estão sendo cantados e não leve para nenhum outro lugar. A comida deve ser colocada ao lado dos sutras, sem necessidade de uma mesa especial. Terminada a degustaçao todos os monges devem ir ao lavatório e gargarejar. Em seguida, retornam aos seus assentos respectivos e começam a ler os sutras. Devem ler continuamente, da refeição da manhã ao meio-dia. Quando o tambor soar três vezes é o anúncio da refeição do meio-dia, que marca o fim da leitura de sutra naquele dia.

Desde o primeiro dia uma placa amarela anunciando a celebração do aniversário do imperador deve ser colocada a leste das calhas na frente do Salão de Buda ou na coluna leste dentro do Salão. O nome do abade deve estar escrito num pedacinho de papel vermelho ou branco junto com o ano, o mês e o dia da celebração. A leitura dos sutras deve continuar assim até o dia do aniversário do imperador. O abade então faz o sermão do Darma para marcar a celebração. Este é um costume antigo, que todos seguem.

Às vezes, algum monge especialmente aplicado deseja ler os sutras por iniciativa própria. Todo templo deve ter uma sala especial, onde os interessados na leitura de sutras devem ir. Para esse tipo de leitura, siga as regras anotadas no Shingi [Regras e procedimentos monásticos].

Certa vez, o Grande Mestre Yakusan Kudo perguntou ao noviço Ko, “O que é mais proveitoso, ler os sutras ou estudar com um mestre?” Ko disse, “Nem ler sutras nem estudar com um mestre tem qualquer valor.” Yakusan disse, “Você está bem afiado. Mas se nada disso tem valor, como a iluminação pode ser alcançada?” Ko disse, “Não quero dizer que ninguém pode alcançá-la, mas nem os sutras nem os ensinamentos de um mestre podem oferecer a essência.”

Alguns aceitam a essência dos ensinamentos dos Budas e Patriarcas, outros não. No entanto, ler os sutras e estudar sob a direção de um mestre nada mais é que as atividades diárias dos Budas e Patriarcas.

Dito aos monges em Koshohorinji, Uji, Yamashiro, em 15 de setembro de 1241. Transcrito em 8 de julho de 1245, por Ejo.

(Capítulo 30 do Shobogenzo, Olho e Tesouro da Verdadeira Lei, edição traduzida por Kosen Nishiyama, Tokyo, 1988)

– Tradução de José Fonseca
– Revisão de Monja Isshin

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