Atenção Plena, Êxtase, e Mais Além (4)

Atenção Plena, Êxtase, e Mais Além (4)
Um Manual do Meditador
AJAHN BRAHM

Capítulo 4b.

Anterior – Capítulo 3, Parte 1: Os obstáculos à Meditação I (início)
Capítulo 3, Parte 2: Os obstáculos à Meditação I (conclusão)
Capítulo 4, Parte 1: Os Obstáculos à Meditação II (início)

Os obstáculos à meditação II

O quarto obstáculo – Inquietação e Remorso.

Os próximos obstáculos, inquietação e remorso, estão entre os mais sutis dos obstáculos. O principal componente desse obstáculo é a inquietação da mente. Mas primeiramente, vamos abordar brevemente a questão do remorso.

Remorso

Remorso é o resultado de coisas dolorosas que você pode ter feito ou dito. Em outras palavras, é o resultado de uma má conduta. Se algum remorso surge na meditação, ao invés de deixar-se ruminar sobre isso, você deve perdoar a si mesmo. Todo mundo comete erros.  Os sábios não são pessoas que nunca cometem erros, mas aqueles que perdoam a si mesmos e aprendem com os seus erros. Algumas pessoas têm tanto remorso que elas pensam que nunca poderiam se tornar iluminadas.

A história de Angulimâla é uma história muito bem conhecida das escrituras budistas (MN 86). Angulimâla era um assassino em série. Ele matou 999 pessoas. Ele cortava o dedo de cada uma das vítimas e os colocava em uma guirlanda, a qual ele carregava em seu pescoço. A centésima vítima seria o Buda, mas, é claro, você não pode matar um buda. Ao invés disso, o Buda “o matou”, matou seus maus modos, matou suas violações. Angulimâla tornou-se um monge budista. Até um assassino em série como Angulimâla pode alcançar jhanas e se tornar completamente iluminado. Então, você já matou alguém? Você é um assassino em série? Você provavelmente nunca fez nada parecido. Se uma pessoa como ele pode se tornar iluminado, certamente você também pode. Não importa as coisas ruins que você possa ter feito no seu passado ou as coisas pelas quais você se sente cheio de remorso, sempre lembre Angulimâla. Então você não se sentirá tão mal a respeito de si mesmo. Perdão, deixar o passado ir, é o que supera o remorso.

Inquietação

A inquietação emerge porque nós não apreciamos a beleza do contentamento. Nós não reconhecemos o puro prazer de fazer nada. Nós temos uma mente “buscadora de defeitos”, ao invés de uma mente que aprecia o que já está ali. Inquietação na meditação é sempre um sinal de não encontrar alegria no que está aqui. Se nós encontramos alegria, ou não, depende do modo com a qual nós treinamos nossa percepção. Está em nosso poder mudar a forma que nós vemos as coisas. Nós olhamos para um copo d´água e percebemos que é muito bonito, ou nós podemos pensar que é comum. Na meditação, nós podemos ver a respiração como entediante e rotineira, ou nós podemos vê-la como linda, única e de grande valor. Se nós olharmos para a respiração como algo de muito valor, então nós não ficaremos inquietos. Nós não iremos por aí procurando por algo mais. Isso é o que a inquietação é: ir por aí procurando por algo a mais a fazer, algo mais sobre o que pensar, algum lugar a mais para ir – qualquer lugar exceto o aqui e agora.

Inquietação é um dos principais obstáculos, juntamente com os desejos sensoriais. A inquietação torna muito difícil sentar-se imóvel por períodos longos.

Eu começo a meditação com a consciência no momento presente, apenas para superar o modo bruto da inquietação que diz “eu quero estar em qualquer lugar, menos aqui e agora”. Não importa que lugar seja esse, não importa o quão confortável você o torne, a inquietação sempre dirá que não está bom o suficiente.  Ela olha para sua almofada de meditação e diz que ela é muito grande ou muito pequena. Ela olha para um centro de retiro de meditação e diz: “não é bom o suficiente. Nós devemos ter três refeições por dia, nós devemos ter um serviço de quarto”.

Contentamento é o oposto de uma mente “buscadora de defeitos”. Você deve desenvolver a percepção do contentamento com o que quer que você tenha, onde estiver, tanto quanto você puder.

Tome cuidado ao encontrar falhas na sua meditação. Às vezes você pode pensar “Eu não estou indo profundo o suficiente. Eu tenho observado o momento presente por tanto tempo, e eu não estou chegando a lugar nenhum”.  Esse pensamento é a própria casa da inquietação. Não importa como a meditação está indo, nem sua opinião. Esteja absolutamente contente com ela e ela vai fluir mais profundamente. Se você está insatisfeito com seu progresso, então você está tornando-o pior. Assim, aprenda a estar contente com o momento presente. Esqueça sobre jhanas, apenas esteja contente de estar aqui e agora, nesse momento. Assim que esse contentamento aprofundar, ele, na realidade, dará origem a jhanas.

Observe o silêncio e fique contente por estar silencioso. Se você está verdadeiramente contente, você não precisa dizer nada. Não seria a maioria das conversas internas formas de reclamações, tentativas de mudar as coisas, ou desejo de fazer alguma coisa a mais? Ou formas de escapar para dentro do mundo dos pensamentos e ideias? Pensar indica uma falta de contentamento. Se você está verdadeiramente contente, então você está calmo e quieto. Veja se você pode aprofundar seu contentamento, porque esse é o antídoto para a inquietação.

Até mesmo se você tiver uma dor no seu corpo e não se sentir bem, você pode mudar sua percepção e considerá-la como uma coisa fascinante, até bonita.  Observe se você consegue estar contente com a dor ou sofrimento. Observe se você consegue permiti-la. Algumas vezes durante minha vida como monge eu tenho estado com uma dor muito severa. Ao invés de tentar escapar, o que seria inquietação, eu voltei a minha mente para aceitar completamente a dor e estar contente com ela. Eu descobri que é possível estar contente até com dor severa. Se você consegue fazer isso, a pior parte da dor desaparece com a inquietação. Não há desejo de livrar-se dela.  Você está completamente quieto com o sentimento. A inquietação que acompanhará a dor é provavelmente a pior parte. Se livrar da inquietação através do contentamento e você poderá até se divertir com a dor.

Desenvolver contentamento seja com o que você tiver – o momento presente, o silêncio, a respiração. Seja onde estiver, desenvolva contentamento, e a partir desse contentamento – a partir do centro deste contentamento – você notará sua meditação aprofundar. O contentamento procura pelo que é certo, e ele pode mantê-lo calmo. Já a inquietude sempre fará de você um escravo. Há uma símile que o Buda usou (MN39, 14). Inquietação é como ter um mestre tirânico ou uma mestra sempre dizendo a você: “vá e consiga isso”, “vá é faça aquilo”, “aquilo não está certo”, “limpe aquilo melhor” e nunca dá a você um momento de descanso. Aquele tirano é a mente “buscadora de defeitos”.  Vença esse tirano através do contentamento.

Depois de você ter superado as mais variadas formas de inquietação, uma forma bem refinada frequentemente ocorre nos estágios mais profundos da meditação. Eu estou me referindo a quando você vê a nimitta pela primeira vez. Por causa da inquietação, você não pode esquecer. Você se comporta de maneira tola. Você não está contente com a nimitta tal como ela aparece agora. Você quer algo mais. Você se sente entusiasmado. Inquietação é um dos obstáculos que pode facilmente destruir a nimitta. Você já chegou. Você não precisa fazer mais nada. Apenas esqueça. Fique contente com ela e ela se desenvolverá por si mesma. Isso é o que o contentamento é – um completo “não-fazer”, apenas sentar e assistir uma nimitta florescer em uma jhana. Se isso levar uma hora, 5 minutos ou até mesmo nunca acontecer, você está contente. Esse é o caminho para adentrar as jhanas. Se a nimitta chegar e partir, aquele é o sinal de inquietação da mente. Se você conseguir sustentar a atenção sem esforço, a inquietação terá sido superada.

Tradução: Daniela Sopezki (www.mindfulnessbrasil.com)
Revisão: Carolina Menezes (meditaçãopoa – Meditação e Ciência)

. Ler Parte 5 (Final)

 

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