As Raízes do Romantismo Budista (6)

As Raízes do Romantismo Budista
por
Thanissaro Bhikkhu

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5

Parte 6 (de 8 )

Em “Religiões, Valores e Experiências de Pico” (1970), Abraham Maslow, o “pai americano da psicologia transpessoal”, dividiu as experiências religiosas nas mesmas duas categorias usadas por James. Mas em uma tentativa de separar essas categorias de qualquer tradição em particular, nomeou-as pela forma que deveríam assumir se gravadas ao longo do tempo: experiências de pico e experiências de platô. Estes termos hoje já entraram para o vocabulário comum. Experiências de pico são sentimentos de curta duração de unidade e de integração que podem vir não só na área da religião mas também no esporte, sexo e arte. Experiências de platô exibem um senso mais estável de integração e duram muito mais tempo.

Maslow deu pouca utilidade para as interpretações tradicionais das experiências de pico, considerando-as como difusões “culturais” que obscureciam a verdadeira natureza da experiência. Assumindo que todas as experiências de pico, independentemente da causa ou do contexto, são basicamente o mesmo fenônemo, ele as reduziu às suas características psicológicas comuns, tais como sentimento de plenitude, a transcendência-dicotômica, ludicidade e sem-esforço. Com tal redução ele percebeu que essas experiências não eram de valor duradouro a menos que pudessem ser transformadas em experiências de platô. Para este fim, ele viu a psicoterapia como necessária para o seu aperfeiçoamento: integrá-los em um regime de orientação e educação que realizasse o pleno potencial do ser humano – intelectual, físico, social, sexual – numa sociedade onde todas as áreas da vida são sagradas e as experiências de platô seríam de senso comum para todos.

Esses três autores no campo da psicologia da religião, apesar das suas diferenças, mantiveram vivas as idéias românticas sobre a religião no Ocidente, dando às mesmas um selo de aprovação científica. Por meio da sua influência, estas idéias moldaram a psicologia humanista e – através da psicologia humanista – as expectativas que muitos americanos levaram para o dharma.

No entanto, quando comparamos essas expectativas com os princípios originais do dharma, encontramos diferenças radicais. O contraste entre elas é especialmente forte em torno das três questões mais centrais da vida espiritual: Qual é a essência da experiência religiosa? Qual é a doença de base que a experiência religiosa pode curar? E o que significa ser curado?

A natureza da experiência religiosa.

Para a psicologia humanista, como para os românticos, a experiência religiosa é um sentimento direto, no lugar de uma descoberta de verdades objetivas. O sentimento essencial é de uma unidade que supera todas as divisões interiores e exteriores. Essas experiências vêm em dois tipos: as experiências de pico, em que o sentido de unidade rompe as divisões e dualidades; e experiências de platô, onde – por meio de treinamento – o sentido de unidade cria um senso saudável de self, enformando todas as nossas atividades na vida diária.

No entanto, o dharma conforme exposto em seus primeiros registros coloca o treino na unidade e um senso saudável de self como anterior às experiências religiosas mais dramáticas. Um sentido saudável de self se dá com o cultivo de generosidade e virtude. Um sentido de unidade – pico ou platô – é alcançado nos níveis mundanos de concentração (jhana), que constituem o caminho, ao invés de ser objetivo da prática. A derradeira experiência religiosa, o Despertar, é algo totalmente diferente. O Despertar é descrito não em termos de sentimento mas de conhecimento: domínio hábil dos princípios da causalidade subjacentes às ações e respectivos resultados, seguido pelo conhecimento direto da dimensão além da causalidade, onde todo o sofrimento cessa.

(ler Parte 7)

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