As Raízes do Romantismo Budista (3)

As Raízes do Romantismo Budista
por
Thanissaro Bhikkhu

Parte 1
Parte 2

Parte 3 (de 8 )

Os românticos tiraram sua inspiração original de uma fonte inesperada: Kant, o velho, enrugado professor cujas caminhadas diárias eram tão pontuais que os vizinhos podiam acertar os relógios por ele. Em sua Crítica do Juízo, ele ensinou que a criação e sentimento estéticos eram as mais elevadas atividades da mente humana, na medida em que somente elas podiam curar as dicotomias da experiência humana. Friedrich Schiller (1759-1805), talvez o mais influente dos filósofos românticos, incrementou esta tese com a sua noção estética do “impulso lúdico”, o qual seria a expressão definitiva da liberdade humana, para além de ambas as compulsões da existência animal e das leis da razão, realizando a integração de ambas. O homem, ele disse, “é plenamente um ser humano apenas quando brinca.”

Aos olhos de Schiller, o impulso lúdico não só integrava o self, mas também ajudava a dissolver nossa separação dos outros seres humanos e do ambiente natural como um todo. Uma pessoa com a liberdade interna necessária para a auto-integração instintivamente quer que os outros experimentem a mesma liberdade. Tal conexão explica o programa político Romântico de oferecer ajuda e solidariedade para os oprimidos de todas as nações para que possam derrubar os seus opressores. O valor da unidade interna, aos seus olhos, era comprovado pela sua capacidade de criar vínculos de unidade no mundo da ação social e política.

Schiller viu o processo de integração como interminável: a união perfeita nunca poderia ser alcançada. Uma vida significativa seria um envolvimento contínuo com o processo de integração. O caminho era o próprio objetivo.

E esse caminho também seria irrestrito e totalmente desprovido de modelos ou padrões. Dada a natureza livre da impulso lúdico, o caminho de cada pessoa para a integração seria individual e único.

O colega de Schiller, Friedrich Schleiermacher (1768-1834), aplicou essas idéias à religião, concluindo que, como qualquer outra forma de arte, a religião era uma criação humana, e que sua função essencial consistia em curar as divisões dentro da personalidade humana e na sociedade humana em geral. Ele definiu a essência da religião como “a sensibilidade e o gosto pelo infinito”, que começa no estado de mente receptiva onde a consciência se abre para o infinito. Essa sensação do infinito é seguida por um ato da imaginação criativa, que articula esse sentimento para si mesmo e para os outros. É porque esses atos criativos – e portanto todas as doutrinas religiosas – constituem um passo para fora da realidade da experiência, que eles estão sempre abertos para a melhoria e a mudança.

Algumas breves citações de sua obra, Na Religião, podem demonstrar o pensamento de Schleiermacher.

“O indivíduo não é apenas parte de um todo, mas uma exposição dele. A mente, como o universo, é criativa, não apenas receptiva. Aquele que compreendeu que é mais do que ele mesmo, sabe que perde pouco quando perde a si mesmo. Em vez de se alinhar à crença da imortalidade pessoal depois da morte, o verdadeiramente religioso prefere esforçar-se para aniquilar a sua personalidade e viver no Uno e no Todo.”

“Onde é que a religião é para ser procurada? Onde o contato vivo do ser humano com o mundo se forma como sentimento. Pessoas verdadeiramente religiosas são tolerantes a diferentes traduções desse sentimento, mesmo a hesitação do ateísmo.Não ter o divino imediatamente presente nos sentimentos sempre pareceu ser menos religioso que tal hesitação [do ateísmo]. A insistência que uma concepção particular da divindade seja verdadeira está longe da religião.”

(continuar com Parte 4)

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