As Raízes do Romantismo Budista (1)

As Raízes do Romantismo Budista
por
Thanissaro Bhikkhu

Parte 1 (de 8 )

Muitos ocidentais, quando novos no budismo, são atingidos pela estranha familiaridade do que parecem ser os seus conceitos centrais: a interconexão, a plenitude, a transcendência do ego. Mas o que eles podem não perceber é que os conceitos soam familiares porque eles são familiares. Em grande parte, eles não vêm de ensinamentos do Buda, mas a partir do portão do dharma da psicologia ocidental, pelo qual as palavras do Buda foram filtradas. Partem menos das fontes originais do dharma do que das suas próprias raízes ocultas na cultura ocidental: o pensamento dos românticos alemães.

Os românticos alemães podem estar mortos e quase esquecidos, mas suas idéias ainda estão muito vivas. Seu pensamento sobreviveu porque foram os primeiros a enfrentar o problema do sentimento de crescer em uma sociedade moderna. A sua análise do problema, juntamente com a solução proposta, ainda soam verdadeiros.

Eles viram que a sociedade moderna é desumanizadora, pois nega a plenitude ao ser humano. A especialização do trabalho leva a sentimentos de fragmentação e isolamento; o Estado burocrático, a sentimentos de arregimentação e constrição. A única cura para esses sentimentos, os românticos propunham, é o ato criativo, artístico.Esse ato integra o “eu” dividido e dissolve os seus limites em um sentido ampliado de identidade e de interconexção com os outros seres humanos e a natureza em geral. Os seres humanos são mais completamente humanos quando são livres para criar espontaneamente a partir do coração. As criações do coração são o que permite às pessoas conectar-se. Embora muitos românticos tenham considerado as instituições e doutrinas religiosas como desumanas, alguns deles voltaram-se para a experiência religiosa – uma sensação direta de união com o todo da natureza – como uma fonte primária para a re-humanização.

Quando a psicologia e a psicoterapia se desenvolveram como disciplinas no Ocidente, elas absorveram muitas das idéias dos românticos e as transmitiram para a cultura em geral. Como resultado, conceitos como integração da personalidade, a auto-realização, e interconexão, juntamente com os poderes de cura de plenitude, espontaneidade, ludicidade e fluidez têm sido parte do ar que respiramos. Da mesma forma, tornou-se parte da cultura a idéia de que a religião é essencialmente uma busca por um sentimento-experiência, e as doutrinas religiosas são uma resposta criativa para essa experiência.

Além de influenciar a psicologia, essas concepções inspiraram o cristianismo liberal e o judaísmo da reforma, que propôs que as doutrinas tradicionais deviam ser reformuladas de modo criativo para falar com cada nova geração, a fim de manter a experiência religiosa essencial e viva. Então foi natural que, quando o dharma veio para o ocidente, as pessoas o interpretassem também de acordo com essas concepções.Os professores asiáticos, muitos dos quais haviam absorvido as idéias românticas através da educação ocidentalizada que receberam antes de virem para cá, descobriram que poderíam conectar-se com o público ocidental falando de temas como a espontaneidade e a fluidez em oposição à “burocracia do ego.” Os estudantes ocidentais descobriram que podiam se relacionar com a doutrina da originação co-dependente quando interpretada como uma variação da idéia de interconexão; e podem aceitar a doutrina do não-eu como uma negação de um “eu” seperado [e individual] em favor de uma identidade maior e mais abrangente com todo o cosmos.

Na verdade, a visão romântica da vida religiosa moldou mais do que apenas os ensinamentos isolados do dharma. O romantismo colore a visão ocidental da finalidade da prática do Dharma como um todo. Professores ocidentais de todas as tradições afirmam que o objetivo da prática budista é ganhar a fluidez criativa que supera as dualidades. Como explicou um autor, o Buda ensinou que “dissolver as barreiras que criamos entre nós e o mundo é o melhor uso da nossa vida humana …. [Ausência do ego] manifesta-se como curiosidade, como capacidade de adaptação, como humor, como brincadeira… a nossa capacidade de relaxar com o não saber.” Ou como outro disse: “Quando a nossa identidade se expande para incluir tudo, encontramos a paz com a dança do mundo.” Acrescenta um terceiro: “Nosso trabalho para o resto da nossa vida é de nos abrirmos para essa imensidão e expressá-la.”

continuar lendo: Parte 2

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Uma resposta to “As Raízes do Romantismo Budista (1)”

  1. EGUINALDO PAIVA Says:

    Bom dia a todos. É realmente muito edificante tudo isso que acabei de lê, é uma realidade na nossa vida.

    Curtir


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