Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 5

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 5
por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão

Texto introdutório: Repensando o Alimento
Parte 1: O Caminho do homem que cozinha
Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar
Parte 3: Lavando o Arroz, Lavando o Coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento

caminhozen-img003(5) Discriminação para a Comida

O coração do ser humano manifesta uma variedade de sentimentos. E um deles é o de gostar de certos tipos de comida ou detestar outros. Mas não se pode dizer que esse é um sentimento totalmente ruim. Se por um lado ele pode motivar comentários das pessoas umas em relação às outras, não quer dizer que seja algo proposital.

Abrindo a geladeira, encontramos muitas coisas que gostamos, como carne, peixe e verduras. Dentro do coração, pensamos o que iremos preparar para o jantar. Mas por estarmos ocupados com o trabalho, por exemplo, não comemos toda a comida na refeição, deixando sobras de carne e peixe, desperdiçando vegetais.

Hoje em dia as pessoas dão muita importância à conveniência. O simples fato de tocarmos com as mãos a substância pura dos ingredientes já produz um bom sentimento e alegria. Mas tem pessoas que reclamam se o ingrediente é comum. No fundo a comida tanto pode ser boa como ruim. Cada comida tem um valor insubstituível. No entanto, mesmo sabendo disso, nós às vezes repetimos o sentimento de gostar e detestar, julgando o valor de cada alimento segundo a nossa conveniência.

Comparativamente, pode-se até chegar a pensar que para fazer uma comida deliciosa basta usar ingredientes caros. Mas não é bem assim. Em qualquer lugar, com qualquer ingrediente, a comida só será saborosa se houver o trabalho vivo do tenzo. Em geral deixamos transparecer o preconceito. Cozinhar parece ser algo livre, sem regras. Mas na verdade cozinhar é algo bem diferente. Esse sentimento no coração é influenciado pelo mundo exterior, sendo nada mais do que a expressão do individualismo. Se olhamos de forma superficial, não temos como vislumbrar o maravilhoso conteúdo inerente à comida. Visualizar o planejamento depende da atitude da pessoa que cozinha. A insatisfação por causa do ingrediente ser comum não é expressão da pobreza do coração da pessoa?

A mesma coisa se aplica ao relacionamento humano. Nossa atitude com as pessoas à nossa volta varia de acordo com o status, título e a condição externa. Uma pessoa que elogia outra pessoa mesmo tendo aversão à ela é alguém que eventualmente sente orgulho por estar numa posição mais alta do que os outros. A pessoa aparenta estar satisfeita, mas o sentimento que se manifesta não é bom.

A meta do aperfeiçoamento do caráter é eliminar o coração de discriminação com relação ao ingrediente. Mas para perdermos sinceramente o preconceito e fazer com que os pensamentos mundanos e a obsessão não se manifestem, é necessário preparação mental e treino. Escute as palavras do líder e das pessoas experientes, deslumbrando o seu próprio coração. Para este propósito, o tenzo nunca perde as sessões de meditação pela manhã e à noite.

Na vida diária, em vários aspectos, há um grande significado em considerarmos a harmonia.

A harmonia tem um grande significado nos mais variados aspectos da vida diária. Devemos pensar na harmonia entre o trabalho e o silêncio. Cozinhar é um mundo de trabalho. Trabalhando seriamente, com mais empenho, movendo o corpo, faz com que o tempo passe a ter um significado valioso.

A maneira de usar os ingredientes é a expressão do coração bondoso da pessoa que prepara a comida. Por outro lado, quando se toca a comida simples, o real valor da pessoa não é avaliado? Seja qual for a situação, o sentimento de preconceito em relação à comida não se manifesta. Valorizando a característica peculiar de cada coisa, estaremos vivendo de acordo com os pontos positivos de cada um. Mantendo tais sentimentos, quando o relacionamento humano existe, não se consegue enxergar os erros.

– Adaptado de texto publicado na revista Caminho Zen, Vol. 11, No. 1-2006

Continuar lendo:
Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun)
Parte 6: Respeitar a Comida

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Uma resposta to “Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 5”

  1. Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 6 « Sanga Soto Zen Budista Águas da Compaixão Says:

    […] Texto introdutório, Repensando o Alimento Parte 1: O Caminho do homem que cozinha Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar Parte 3: Lavando o Arroz, Lavando o Coração Parte 4: Arranjo e Procedimento Parte 5: Discriminação para a Comida […]

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