Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 2

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 2

por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão
Texto introdutório: Repensando o Alimento
Parte 1: O Caminho do homem que cozinha

(2) Os Efeitos espirituais do cozinhar

Como a preparação das refeições é um trabalho diário, o “tenzo” – o monge responsável pela preparação das refeições – segue o mesmo ritmo, continuamente, durante o ano inteiro. Diariamente, depois do almoço, dirige-se ao diretor (tsûsu) ou ao diretor assistente (kansu) do Templo, para discutir os detalhes das refeições para o dia seguinte. Primeiro é preciso saber quais são os ingredientes disponíveis para serem usados nas próximas refeições. São tomados muitos cuidados para a preparação dos ingredientes, que devem ser limpos e guardados para evitar a sujeira e os insetos. A comida é tratada como o tesouro mais precioso. Muitas vezes, compras de emergência são inevitáveis, mas geralmente as compras são planejadas para formar o estoque necessário, evitando um excesso desnecessário e o apodrecimento de comida na geladeira.

Uma vez selecionados os ingredientes, o “tenzo” tem uma reunião com os seis administradores do Templo (roku chiji) para decidirem as refeições do dia seguinte. Isto é feito de uma maneira prática, levando em consideração a necessidade de aumentar a quantidade de comida, quando há trabalhos que consomem muita energia ou um treinamento religioso muito rigoroso. Uma vez decidido o menu, ele deve ser escrito em um mural chamado “gonjôhai”.

Quando é iniciada a preparação de uma refeição, todos os presentes na cozinha cooperam e a responsabilidade também é dividida entre todos. O trabalho é importante demais para permitir negligência entre os que participam. Mas o “tenzo” não deixa tudo nas mãos das outras pessoas, embora o trabalho de cada um seja muito importante. Os oceanos são formados por gotas de água, e as montanhas são o resultado de muitos acúmulos de poeira.

É preciso que vejamos o todo e os indivíduos como partes complementares. Frequentemente nos preocupamos com os preços do supermercado, mas deixamos as torneiras abertas, a televisão ligada sem ninguém olhando, e jogamos fora papel de embrulho, em bom estado.

Os cozinheiros devem evitar o desperdício. Devem checar, cuidadosamente, se não há sujeira no arroz, ou se ele não é jogado fora junto com a sujeira. Chega um momento em que o cozinheiro coloca todo o seu coração para preparar a mais deliciosa das refeições. Neste instante, ele, a pessoa que recebe a refeição e os ingredientes se tornam um. É neste instante que o ato de preparar a comida purifica o coração, Não existe mais espaço para coisas secundárias.

Cada grão de arroz possui a existência da vida, e por isso não pode ser desperdiçado.

Há muito tempo atrás este significado foi esquecido. Jogamos fora lápis, que embora curtos, ainda podem ser usados, ou rasgamos cadernos que ainda tem folhas em branco. Esta tendência humana atingiu proporções tão monstruosas que mesmo coisas mais caras são jogadas fora, como relógios, guarda-chuvas e roupas.

Podemos evitar tudo isso, não sendo tão obsecados pelo que consideramos as coisas importantes na vida, lembrando que as pequenas coisas como os grãos de arroz e as verduras tem a vida dentro delas.

– adaptado de um artigo publicada na revista Caminho Zen, Vol. 10, No. 1 – 2005

Continuar lendo:
Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun)
Parte 3: Lavando arroz, lavando o coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento
Parte 5: Discriminação para a Comida
Parte 6: Respeitar a Comida



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3 Respostas to “Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 2”

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