Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 1

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 1
por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão
Texto introdutório: Repensando o Alimento

Dôgen Zenji, percebendo a íntima correlação existente entre as refeições e as atividades de Buda, escreveu dois livros importantes sobre o assunto. Um é o Tenzo Kyôkun (Instruções para o Chefe de Cozinha, ou, Instruções para o Cozinheiro Chefe), que estabelece as regras para o preparo das refeições, explica o seu significado, e qual a atitude correta em relação as regras. O outro livro é o Fushukuhanpô (Regras para a Alimentação), que explica as regras e a etiqueta que os monges em treinamento precisam observar na hora das refeições. O preparo das refeições é considerado uma parte vital do treinamento, e por isso o “tenzo”, ou chefe de cozinha, é um dos seis administradores (roku chiji) principais de um monastério.

(1) O Caminho do homem que cozinha

Antes de entrarmos nos detalhes do trabalho do “tenzo”, devemos pensar, novamente, porque é tão importante o trabalho do cozinheiro. Já se passaram dez anos, mas não esqueço um comercial de televisão, embora quase ninguém mais lembre dele. Neste comercial uma esposa tinha feito uma comida instantânea, e ao apresenta-la ao marido, diz : eu faço a comida” e ele responde “e eu como a comida”. No entanto, em menos de um mês, este comercial foi retirado das telas de televisão.

O motivo foi que o comercial tinha provocado críticas de discriminação sexual, por insinuar que o trabalho de cozinha é responsabilidade apenas da mulher.

Quanto eu lia a coluna do leitor, no jornal diário, observava que ninguém escrevia sobre a importância de cozinhar. Esta tem sido a atitude dos japoneses com relação as refeições.

Atualmente, é comum ver jovens casais fazendo compras juntos no supermercado. Se os dois seguem uma carreira profissional, fala-se que o homem também deve compartilhar a responsabilidade do serviço doméstico. Mas ainda se encara de maneira negativa um homem preparar a comida, ou ajudar na cozinha.

Como justificativa, citam a frase chinesa “o homem deve afastar-se da cozinha”. Mas esta frase não significa que um homem não deva trabalhar na cozinha. No Japão não se ensina a atitude correta para a preparação de uma refeição.

Dogen Zenji escreveu que o “tenzo”, sendo a pessoa encarregada das refeições desde os tempos antigos, tem sido um sacerdote que inspira as pessoas a buscarem o Caminho de Buda e da Iluminação.

As refeições se baseiam em três elementos – a pessoa que prepara a comida, a pessoa que a come e os ingredientes com que ela é feita. O ideal a ser cultivado é desenvolver um hábito alimentar baseado no relacionamento místico destes três elementos. Quem prepara a comida deve pensar na pessoa que receberá esta refeição, colocando este sentimento na comida.

Deve-se fazer um esforço para usar os animais e as plantas que servem de ingredientes, lembrando das vidas preciosas destes seres.

De acordo com a consciência de quem prepara ou come uma refeição, seu aspecto muda completamente. Mesmo usando os mesmos ingredientes, o resultado final pode ser bom ou mau. “Não há nenhum mérito em fazer um trabalho, se não se tiver fé no Caminho de Buda. “

O importante é sempre focar na sua mente e coração o objeto da sua ação. Embora a pessoa sem experiência tenha dificuldade em entender, quando se prepara a comida com o espírito – inconscientemente – a face reflete isto, está calma e numa atmosfera mística.

Fazer uma refeição é um trabalho árduo e profundo, que inicia com o preparo dos ingredientes e dos temperos.

Por isso no mundo do Zen, cozinhar e praticar são inseparáveis. Cozinhar já é um treinamento em si mesmo, cozinhar é uma manifestação da prática. Se o coração estiver presente e pensando nas outras pessoas, a compreensão de si mesmo será cultivada. Por isso cozinhar é um caminho para aperfeiçoar o caráter.

O mesmo se aplica a outras atividades, que vão desde o despertar pela manhã até a hora de dormir.
Isto guia os seis administradores do templo nos vários tipos de trabalho.

O Tenzo Kyôkun explica isto em todos os detalhes. Se não pudermos entender a essência deste livro, não seremos capazes de preparar uma refeição de modo adequado.

– adaptado de um artigo publicada na revista Caminho Zen, Vol. 10, No. 2 – 2005

Continuar lendo:
Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun)
Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar
Parte 3: Lavando arroz, lavando o coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento
Parte 5: Discriminação para a Comida
Parte 6: Respeitar a Comida

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4 Respostas to “Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 1”

  1. Islan... Says:

    GassHõ, querida professora…

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  2. Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) - 3 « Sanga Soto Zen Budista Águas da Compaixão Says:

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