Repensando o Alimento

Repensando o Alimento
por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão

Para muitas pessoas o mundo é uma grande feira-livre onde todos os tipos de alimentos que se queira estão disponíveis. Mas isto não garante que possamos comer tudo que nos é oferecido lá. Em primeiro lugar, porque comendo em excesso, ou fazendo uma dieta que não seja balanceada, podemos provocar inúmeros tipos de doenças. Em segundo lugar, porque as pessoas que tem em abundância, esquecem a alegria da boa comida, e comem suas refeições sem gratidão. Para piorar ainda mais, desperdiçamos muita comida. Isto se deve a nossa atitude mental, em outras palavras, estamos prejudicando não apenas nosso corpo, mas também a nossa mente.

Estudos feitos na Medicina, nas Ciências e na Filosofia definem o significado da vida de formas diferentes. Porém não importa o que dizem, pois certamente nenhum indivíduo pode manter a vida por si próprio. Dentre as três necessidades básicas para a sobrevivência (a comida, as roupas e um abrigo para morar), a comida é a mais essencial de todas. Para isto precisamos sacrificar a vida de animais e de vegetais. Por isso, devemos ter o maior respeito pelo que comemos – este é um assunto muito sério.

Enquanto estudava na China, Dogen Zenji aprendeu que, por tradição, os chineses tratavam a comida com muita seriedade e a consideravam intimamente conectada com a Medicina.

O monge encarregado da nutrição ocupava um alto posto, e devotava um grande esforço para assegurar uma longa vida a todos, dando-lhes saude física e mental. Nos vários templos que visitou, Dogen Zenji sempre encontrou herdeiros desta tradição.

Quando voltou para o Japão, em 1237, Dogen Zenji, impressionado com a importância da comida, escreveu o Tenzo Kyôkun (“Regras para o Chefe de Cozinha”, também traduzido como “Instruções para o Cozinheiro Chefe”), e mais tarde, Fushukuhanpô (“Instruções sobre a Alimentação). Em ambas, ele trata as refeições como sendo muito importantes para a disciplina religiosa. Há 750 anos atrás, numa época em que as pessoas só estavam interessadas em comer o máximo possível, é incrível saber que ele encontrou um significado religioso na comida.

No Tenzo Kyôkun – “tenzo” é a designação dada ao monge responsável pela preparação da comida dos monges que estão em treinamento – o Mestre Dogen foca os cuidados e as atitudes apropriadas para trabalhar com ela. A importância deste livro, no entanto, ultrapassa os limites da cozinha de um Templo. Qualquer pessoa que o ler com cuidado, descobrira pontos aplicáveis a todas as situações do cotidiano. Ele também nos mostra os aspectos mais importantes em nossa maneira de viver, a natureza real da vida e as relações humanas.

Dôgen Zenji viu a preparação da comida como um dever importante na disciplina dos monges em treinamento, porque é na cozinha que nos deparamos com a essência da vida, sendo esta experiência rica em ensinamentos. Por isso ele só permitia que monges já com bastante treinamento religioso fossem servir como “tenzo”, e é por isso também que eles eram incluidos entre os chefes administradores do Templo.

Mas ele tinha outros motivos para salientar a importância da comida. Ter cursos acadêmicos é importante, mas nosso verdadeiro estilo de vida e de disciplina, depende mesmo é dos atos simples da vida diária, como cozinhar com sinceridade e total concentração.

O Tenzo Kyôkun começa corrigindo nossas errôneas concepções a respeito das refeições. De fato, repensar sua importância faz-nos valorizar os alimentos.

– adaptado de um artigo publicada na revista Caminho Zen, Vol. 10, No. 1 – 2005

Continuar lendo:
Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun)
Parte 1: O Caminho do homem que cozinha
Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar
Parte 3: Lavando arroz, lavando o coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento
Parte 5: Discriminação para a Comida
Parte 6: Respeitar a Comida

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4 Respostas to “Repensando o Alimento”

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