Textos de Mestre Dogen (15)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma
Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante
Parte 4: A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”
Parte 5: A necessidade de procurar um verdadeiro Mestre
Parte 6: O que você deve saber para a prática do Zen
Parte 7. A necessidade do treinamento Zen na prática do Darma de Buda

8. A conduta do monge Zen

Desde o tempo do Buda, vinte e oito ancestrais da Índia, e os seis da China[1] transmitiram diretamente o verdadeiro Darma, não acrescentando nada, nem mesmo um fio de cabelo, nem permitindo que uma simples partícula de pó penetrasse o Darma. Com a transmissão da okesa para Daikan Eno (Hui-neng), o Budismo se espalhou pelo mundo e o tesouro do Verdadeiro Darma do Tathagata[2] atualmente floresce na China. É impossível perceber o que é o Darma Verdadeiro através da imaginação ou de pensamentos. Aqueles que penetram o Caminho abandonam as idéias sobre o mesmo e não se importam mais com a fama, pois transcendem a mente comum.

Daikan Eno (Hui-neng) perdeu sua face quanto treinava no Monte Obai (Huang-mei). Eka (Hui-ko)[3] mostrou a seriedade de suas intenções cortando fora o próprio braço em frente à caverna de Bodidarma, atingindo a medula e transformando a mente deludida em mente iluminada. Mais tarde,  prostrou-se em frente a Bodidarma com profundo respeito.. Dessa forma ele alcançou a liberdade absoluta, vivenciando o não-corpo-não-mente, desapegado, ilimitado, em contínuo movimento.

Um monge perguntou à Joshu (Chão-chou)[4], “O cachorro tem natureza Buda?”[5] Joshu respondeu: “Mu”[6]. Como que “Mu” pode ser medido se não há nada para pegar, apenas para abandonar? Sugiro que tente ir em frente! Faça a si mesmo essas perguntas: O que são corpo e mente? O que vem a ser conduta Zen? O que são nascimento e morte? O que é Budismo? Quais são as ocupações do mundo? E, o que são, essencialmente, montanhas, rios, terra, seres humanos, animais e casas?

Se continuarem estas perguntas, o movimento e a quietude, não aparecerão claramente. Entretanto, isto não significa inflexibilidade. Infelizmente, poucas pessoas o percebem e a maioria sofre delusões. Praticantes Zen, podem percebê-lo tendo treinado por algum tempo. Portanto, é minha sincera esperança que vocês não parem de treinar mesmo após terem se tornado completamente iluminados.


[1] As vinte e oito gerações na Índia começam com o chefe dos discípulos da Buda. Mahakasyapa (Makakasho em japonês) e vão até Bodidarma. As seis gerações na China são, em ordem cronológica, Bodidarma, Taiso Eka (Hui-ko), Kanchi Sôsan, Daii Dôshin, Daiman Kônin e Daikan Enô Seng-ts’na, Tão-hsin, Hung-jen e Hui-neng (em japonês: Bodaidaruma, Taiso Eka, Sosan, Doshin, Konin e Eno).

 

[2] Tathagata – um dos epítetos de Buda, literalmente “aquele que vem e vai do assim como é.”

[3] Eka – 487 a 593 – Segundo Ancestral da China.  Sucessor de Bodhidharma, o qual encontrou aos 40 anos de idade. Seis anos mais tarde recebeu a transmissão do Darma.

[4] Joshu Jushin – 778 a 897 – Discípulo de Nansen, tornou-se monge quando ainda era criança e é considerado um dos grandes mestres Zen, Um de seus casos mais famosos é o koan “Mu”.

[5] Natureza Buda – O potencial para realizar iluminação, inato em todas as coisas. Literalmente, natureza iluminada.

[6] Mu – Literalmente uma negativa, em japonês. Corresponde ao “Wu” chinês.
(a continuar)

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Textos de Mestre Dogen (14)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma
Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante
Parte 4: A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”
Parte 5: A necessidade de procurar um verdadeiro Mestre
Parte 6: O que você deve saber para a prática do Zen

7. A necessidade do treinamento Zen na prática do Darma de Buda

O Darma de Buda é insuperável entre os vários caminhos. É por essa razão que muitas pessoas o seguem. Durante a vida do Tathagata havia apenas um ensinamento e um mestre. O Grande Mestre Xaquiamuni, sozinho, conduziu todos os seres com sua Suprema Sabedoria. A partir da transmissão do Olho Tesouro da Lei Verdadeira (Shobogenzo) ao Venerável Mahakasyapa (Makakasho), vinte e oito gerações na Índia, seis gerações na China e sucessivos ancestrais das Cinco Escolas do Zen[1] diretamente continuaram essa transmissão ininterrupta. Desde a era P’u-t’ung (Jap. Ryokai, 520-526), no estado chinês de Liang, todos que se destacaram como pessoas de valor, tanto monges como nobres, sempre respeitaram e homenagearam o Darma de Buda.

A verdadeira excelência (do verdadeiro Darma) só pode ser amada por aqueles capazes de amar a excelência (do verdadeiro Darma).

Não se deve amar os dragões como o fazia Yeh-kung (Jap. Sekko)[2]. Em algumas áreas ao leste da China, uma rede estrutural de Budismo escolástico estendeu-se sobre os mares e as montanhas. Entretanto, apesar de se espalhar sobre as montanhas, não contém o coração das nuvens.  Embora estendido sobre os mares seca o coração das ondas. Os tolos se identificam com esse tipo de ensinamento. Ficam tão fascinados como quem brincasse com um olho de peixe acreditando ter nas mãos  uma pérola, ou  cuidasse de uma pedra comum do monte Yan como se fosse uma jóia preciosa. Muitas pessoas se arruinaram, caindo na armadilha de demônios. Que  lamentável!

Em localidades remotas, como essa, os ventos dos ensinamentos falsos sopram livremente sendo difícil divulgar o Verdadeiro Darma.

Embora a China já tenha obtido refúgio no Verdadeiro Ensinamento de Buda, por que, então, ele não se difundiu em nossa terra ou na Coréia?

Na Coréia, pelo menos o nome do Verdadeiro Darma pode ser ouvido. Em nosso país, até isso é impossível. Por que? A razão é que muitos dos professores do passado que viajavam á China aderiram à trama dos ensinamentos escolásticos que, embora tenha transmitido muitos textos Budistas, esqueceu-se da essência do Darma de Buda. Qual o mérito disto? No final resulta em nada. E tudo porque eles não conhecem a essência do estudo do Caminho. Que lamentável! Desperdiçaram suas vidas num árduo trabalho infrutífero.

Ao entrar, pela primeira vez, o portal do Darma e iniciar o estudo do Caminho, ouça, simplesmente, os ensinamentos de um mestre Zen e treine de acordo com as instruções recebidas.  Há algo que você perceberá no devido tempo. Está ecrito no Sutra: o Darma gira o eu e o eu gira o Darma. Quando o eu gira o Darma, o eu fica forte e o Darma, fraco. Quando o Darma gira o eu o Darma é forte e o eu, fraco. Esses dois aspectos do Darma de Buda existem desde o princípio. Mas eles só têm sido conhecido por aqueles que receberam a transmissão autêntica. Sem um bom mestre é impossível, até mesmo, ouvir os nomes desses dois aspectos.

Quem desconhece esta entrada não pode nunca estudar o verdadeiro Darma.  Como poderiam diferenciar o certo  do errado?

Aqueles que praticam o verdadeiro Zen através do estudo do Caminho  naturalmente transmitem o significado desses opostos. É por isso que não há erros na transmissão. Outras escolas não fazem assim. É impossível compreender o verdadeiro Caminho  sem praticar o Zen.


[1] As vinte e oito gerações na Índia se iniciam com o chefe dos discípulos de Xaquiamuni Buda, Mahakasyapa (Makakasho em japonês) e vai até Bodidarma.

As seis gerações na China se referem cronologicamente a Bodidarma, Hui-ko, Seng-tsan, Tao-hsin, Hung-jen e Hui-neng em japonês Bodaidaruma, Eka, Sosan, Doshin, Konin e Eno).

Os  Ancestrais das Cinco Escolas Zen são Yun-men, Wei-yen, Tsào-tung, Lin-chi e Fa-yen (Escola Unmon, Escola Igen, Escola Soto, Escola Rinzai,  e Escola Hogen).

[2] O legendário Yeh-kung gostava muito de esculturas e pinturas de dragões, algumas que ele memo fazia. Certa feita um dragão de verdade apareceu em sua sala e ele desmaiou de medo.

(a continuar)

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Textos de Mestre Dogen (13)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma
Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante
Parte 4: A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”
Parte 5: A necessidade de procurar um verdadeiro Mestre

6. O que você deve saber para a prática do Zen

O estudo do Caminho através da prática de zazen é de vital importância. Não deve ser negligenciado. Na China há excelentes exemplos de antigos mestres Zen que deceparam seus braços ou dedos[1]. Há muito tempo o Buda Xaquiamuni renunciou tanto ao seu lar quanto ao seu reino, outra preciosa evidência da prática do Caminho. Nos dias de hoje há quem afirme que os indivíduos necessitam apenas das práticas que podem ser realizadas facilmente. Essas são palavras muito equivocadas e, muito distantes do Caminho. Se você se dedica a uma coisa, exclusivamente, considerando isso uma forma de treinamento, qualquer coisa, até o ato de se deitar, pode ficar entediante. Se uma coisa fica entediante, tudo o mais fica tedioso. Você deve saber que aqueles que gostam das coisas fáceis, são, por isso mesmo, indignos da prática do Caminho.

Nosso grande mestre Xaquiamuni, só conseguiu alcançar o ensinamento que prevalece no mundo atual após se submeter a severo treinamento por incontáveis eons. Considerando-se quão dedicado foi o fundador do Budismo, podem os seus descendentes querer fazer menos do que ele? Aqueles que buscam o Caminho não devem procurar por uma prática fácil. Procedendo assim, vocês jamais serão capazes de alcançar o mundo verdadeiro da iluminação ou de encontrar a sala do tesouro. Até mesmo o mais talentoso dos antigos ancestrais afirmou que o Caminho é difícil de praticar. Você deveria se dar conta do quanto o Budismo é imenso e profundo. Se o Caminho fosse, originalmente, tão fácil de praticar e entender, esses primeiros e talentosos ancestrais não teria chamado a atenção, exaustivamente, para suas dificuldades. As pessoas de hoje, quando comparadas aos antigos ancestrais, não chegam nem a um único fio de cabelo em relação a um rebanho de nove vacas! Isto quer dizer que, mesmo se essas pessoas modernas, que não possuem nem habilidade nem sabedoria, se esforçassem ao extremo, a sua prática, imaginada como difícil, ainda assim seria incomparável aquela dos primeiros ancestrais.

Qual é o ensinamento tão facilmente entendido e praticado que as pessoas de hoje, ingenuamente, tanto apreciam? Não é nem um ensinamento secular nem Budista. É inferior até mesmo às práticas de Pãpiyas (demônios), do Rei Demônio,  as práticas fora do Caminho e as dos dois veículos[2].  Pode-se dizer que é a grande delusão dos homens e mulheres comuns. Embora eles imaginem ter escapado do mundo delusório, ficaram, ao contrário, meramente sujeitos à transmigração sem fim.

Quebrar os ossos e esmagar a medula para alcançar o Budismo são consideradas práticas difíceis. No entanto, é muito mais difícil, controlar a mente. Prolongadas austeridades e prática pura  são difíceis, mas controlar as ações físicas individuais é o mais difícil de tudo.

Se o esmagamento de ossos valesse alguma coisa, os muitos que enfrentaram esse treinamento no passado deviam ter alcançado a  iluminação; mas de fato apenas alguns poucos conseguiram. Se as práticas de austeridade tivessem algum valor, os muitos que assim procederam desde os tempos antigos teriam se tornado iluminados, mas neste caso também, poucos o conseguiram. Tudo isso ocorre devido a grande dificuldade de harmonizar corpo e mente. No Budismo, a mente brilhante e a compreensão escolástica não são essenciais. Também não o são, a mente discriminatória, a vontade, a consciência, pensamento e percepção introspectiva. Para entrar no Caminho de Buda é preciso simplesmente harmonizar corpo e mente.

O velho Buda Xaquiamuni disse: “Kannon Bodhisatva gira o fluxo da percepção para o interior profundo da mente, abandonando o conhecimento e o reconhecimento” Aqui está o significado do que foi dito acima. As duas qualidades: de movimento e de não movimento não apareceram de forma nenhuma; esta é a verdadeira harmonia.

Se fosse possível penetrar o Caminho baseado em possuir uma mente brilhante e grande conhecimento, o culto Shên-Hsiu[3], teria sido, com certeza, capaz de fazê-lo. Se a origem modesta fosse obstáculo para penetrar o Caminho, como Hui-Neng[4], se tornou um dos ancestrais chineses? Estes exemplos mostram, claramente, que o processo de transmissão do caminho não depende nem de uma mente brilhante nem de amplos conhecimentos. Ao buscar o Darma reflitam sobre si mesmos e treinem diligentemente.

Nem juventude nem idade avançada constituem obstáculos para entrar no Caminho. Chão-Chou[5] tinha mais de sessenta anos quando começou a praticar e ainda assim se tornou proeminente ancestral. A filha de Cheng[6], por outro lado, tinha apenas treze anos, mas já tinha alcançado uma profunda compreensão do Caminho, tanto que se tornou uma das mais preciosas aprendizes do seu mosteiro.

A grandeza do Dharma de Buda se revela de acordo com o esforço e a prática realizados.

Aqueles que se dedicarem apenas ao estudo dos sutras, assim como aqueles versados em estudos seculares, deveriam visitar um mosteiro Zen. Há muitos exemplos dos que assim o fizeram. Hui-ssü[7] do monte Nan-Yueh era um homem de muitos talentos e ainda assim se submeteu ao treinamento de Bodidarma. Hsüam-chüeh[8] do monte Yung-chia era o mais fino dos homens e, assim mesmo treinou com Ta-chien (Hui-nêng). O esclarecimento do Darma e a realização do Caminho dependem da força adquirida com o treinamento sob a orientação de mestres Zen.

Ao visitar um mestre Zen em busca de instruções, ouça seus ensinamentos sem tentar adequá-los ao seu ponto de vista, caso contrário você não poderá entender o que ele está dizendo. Purifique seu corpo, mente, olhos e ouvidos e simplesmente ouça seu ensinamento, refutando qualquer outro pensamento. Unifique corpo e mente e receba o ensinamento do mestre como se a água estivesse sendo transferida de um vaso para outro. Se puder alcançar tal estado de corpo e mente, a verdade que o mestre ensina será a sua verdade.

Atualmente, há algumas pessoas tolas que se dedicam a decorar palavras e frases dos sutras e outras que se apegam àquilo que ouviram anteriormente. Agindo assim, tentam comparar o que aparentemente sabem com os ensinamentos de um mestre. Não fazem mais do que manter seus próprios pontos de vista e as palavras de pessoas antigas, ignorando assim as palavras do mestre. Há ainda outros, que atribuindo maior importância ao seu próprio pensar auto-centrado, abrem os sutras e memorizam uma ou duas palavras imaginando que isso seja o Dharma de Buda. Mais tarde, ao receber o ensinamento do Darma de um mestre Zen iluminado, eles o consideram verdadeiro se coincidir com seus próprios pontos de vista, caso contrário os consideram falsos. Não sabendo como abandonar o ponto de vista equivocado, não podem retornar ao verdadeiro Caminho. São dignos de pena, pois ficam sujeitos à eterna delusão. Que lamentável!

Os praticantes devem entender que Buda está além do pensar, do analisar, do discriminar, da imaginação, da percepção e da compreensão intelectual. Se não fosse assim, como é que, mesmo tendo sido dotado dessas várias faculdades desde o nascimento, você ainda não entendeu o Caminho?

Presunção, discriminação, imaginação, intelecto, compreensão humana e assim por diante não tem nada a ver com o Budismo quando estudando o Zen. Muitos assim como crianças, brincam com estas coisas desde o nascimento, acordem para o Budismo agora. Acima de tudo evite presunção e discriminação: reflita sobre isto.[9]

O caminho de penetrar o portal é conhecido apenas pelos mestres que obtiveram este Dharma. Não pode ser alcançado pelos que apenas estudam textos.

(Este texto foi escrito num dia claro e brilhante do terceiro mês do segundo ano de Tempuku[10])


[1] Cortar o braço se refere a Hui-Ko (481-593), o segundo ancestral Zen na China, que cortou seu braço na presença de Bodidarma no templo de Shao-Lin para mostrar o quanto era sincero seu desejo de treinar com aquele mestre. Cortar o dedo refere-se a um dos discípulos de Chu-chi que demonstrou o sentido do budismo para outras pessoas, apenas imitando o hábito de seu mestre de levantar o dedo. Um dia Chu-chi descobriu o que seu discípulo estava fazendo e cortou o dedo do discípulo para faze-lo perceber a verdadeira natureza do budismo.

[2] Ensinamentos dos Sravakas e Pratyebuddhas. Sravakas eram pessoas que esforçavam-se para se tornar Arhat, isto é, aquele que alcançou a iluminação por si mesmo, mas não se preocupa em salvar os outros. Pratyekabuddhas são pessoas que alcançaram a iluminação através de estudos independente, sem a orientação de um mestre. Eles também não se preocupavam  em salvar os outros.

[3] Viveu entre 606-712. O fundador da Escola Zen do Norte da China, foi líder dos discípulos de Hung-jen, (Konin em japonês) o Quinto Pratriarca. Sua compreensão do Caminho era altamente intelectual, o que o impedia de realizar a iluminação total.

[4] Viveu entre 637-712. Foi o sucessor de Hung-jen (Konin em japonês). Realizaou a iluminação quando triturava arroz enquanto treinava no Monte Huang-mei.

[5] Viveu entre 778-897, foi sucessor de Nan-ch’uan, sendo famoso pelo koan  “Chão-chou wu, relatado na página 10.

[6] Não se sabe mais nada a seu respeito.

[7] Viveu entre 514 ou 515 até 577. É considerado como o Segundo Ancestral da Escola Chinesa Tendai. Após ter treinado com o mestre Hui-weng, em 570 foi para o Monte Nan-yueh, onde mais tarde morreu. É famoso por ter escrito um número importante de livros sobre o budismo.

[8] Viveu entre 665-713, é famoso por ter escrito a  “Canção da Iluminação” (Cheng-tao-ko).

[9] Superficialmente, a advertência imediatamente precedente de evitar “pensamento, discriminação e assim por diante, parece ser contraditada aqui. Entretanto, essas duas afirmações não estão realmente em conflito: para “pensamento, e assim por diante” que é para ser usada em última instância, está baseada como deve ser na prática real, não é o pensamento conceitual, e assim por diante,  do anterior. Este é um dos pontos chaves da Soto Zen.

[10] Para alguns estudiosos 5 de abril de 1234, para outros 15º dia do equinócio de primavera de 1234

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Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
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Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Dia Internacional de Paz

international-peace-dayEm 1997, através da resolução 36/67, a ONU determinou o dia 21 de setembro como o Dia Internacional de Paz – uma “chamada global para o cessar-fogo e a não-violência, um momento para reflexão sobre o horror e o custo da guerra e os benefícios das resoluções pacíficas das disputas.”

A Sanga Águas da Compaixão mantem relacionamento com o grupo Mediadores além das Fronteiras (Mediators Beyond Borders), que está promovendo uma série de eventos no mundo inteiro para celebrar o Dia Internacional de Paz de 2009.

No Zen Budismo, o dia 21 de setembro é o dia da realização de O-Higan-e – a Cerimônia de Equinócio da Primavera (no hemisfério sul). O equinócio é, como se costuma dizer, o dia em que a travessia até a outra margem – a margem da Paz e da Tranquilidade – fica mais fácil, pois a noite e o dia têm a mesma duração nesta data. Assim, além de ser um dia para lembrar os ancestrais e falecidos, é também um momento oportuno para lembrar as Seis Paramitas, as práticas que nos levam para a “outra margem”, possibilitando a realização da Paz e Tranquilidade. As Paramitas são: 1. doação ou generosidade (fuse, jp. – dana, sansc.); 2. preceitos ou moralidade (jikai – sila); 3. paciência ou tolerância (nin-niku – kshanti); 4. esforço ou persistência (shôjin – virya); 5. concentração ou meditação (zenjô – dhyana ou jhana); e 6. sabedoria (chi-e – prajna).

Por isso é um dia especialmente apropriado para refletirmos sobre a construção da paz mundial.

No domingo, dia 20 de setembro, foi realizada a Cerimônia de Equinócio da Primavera 2009, seguida por uma apresentação sobre os Mediadores além das Fronteiras e projetos futuros da Sanga na área da Cultura da Paz.

Textos de Mestre Dogen (12)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma
Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante
Parte 4: A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”

5. A necessidade de procurar um verdadeiro Mestre

Um antigo Buda-Ancestral disse certa vez: “Se no princípio a Mente-Bodhi não for verdadeira toda e qualquer prática resultará em nada.” Quão verdadeiro!  A qualidade da prática também depende da verdade ou falsidade do mestre.

O praticante budista pode ser comparado a um bom pedaço de madeira, e o verdadeiro mestre a um bom carpinteiro. Até mesmo a madeira de melhor qualidade não mostrará sua extraordinária beleza se não for trabalhada por um bom artesão. Um pedaço de madeira empenada, em mãos habilidosas, imediatamente mostra esplendidos resultados.  A veracidade do mestre está em direta relação com a verdadeira ou falsa iluminação de seus discípulos. Isto deve ser bem compreendido.

Em nosso país, no entanto, não tem havido verdadeiros mestres desde tempos antigos. Como reconhecemos? Através de suas palavras. Da mesma forma que podemos saber da natureza da nascente se apanharmos uma conchinha de água fluindo no rio.

Por séculos neste país mestres têm compilado livros, ensinado discípulos, e guiado seres humanos e celestiais. Entretanto, suas palavras eram verdes, imaturas, pois  ainda não haviam atingido o nível profundo do treinamento. Como poderiam ter alcançado a iluminação? Apenas transmitiam palavras, recitando nomes e sons. Dia e noite eles contavam o tesouro alheio, sem ter nada de seu.

Mestres anteriores são responsáveis por este estado de coisas. Alguns deles ensinavam que a iluminação deveria ser procurada fora da mente, outros que o renascimento em outras terras era o objetivo. Esta é a fonte da confusão e da delusão.

Um bom remédio, se não for usado de acordo com as instruções adequadas, pode piorar a doença ou mesmo se tornar um veneno. Em nosso país, há muito tempo, não tem havido mestres capazes de controlar o efeito venenoso dos remédios. Por esta razão tem sido tão difícil eliminar os sofrimentos da vida e a doença. Como, então nos libertar do sofrimento da velhice e da morte?

A culpa desta situação é inteiramente dos mestres, não dos discípulos. Por que? Porque eles guiam seus discípulos ao longo dos galhos das árvores, sem penetrar até as raízes. Sem compreender completamente o Caminho, absorvidos em suas próprias idéias e pensamentos, arrastam outros para o mundo da delusão. Que pena! Como os discípulos podem saber a diferença entre o certo e o errado?

Infelizmente, o verdadeiro Darma de Buda ainda não se espalhou por este pequeno país, e mestres verdadeiros ainda terão que surgir. Se você deseja praticar o insuperável Caminho de Buda,  terá que viajar longas distâncias até a China da Dinastia Sung, e encontrando um mestre refletir no verdadeiro Caminho. Ir além dos pensamentos, distaciando-se da mente deludida. Se você é incapaz de encontrar um verdadeiro mestre, é melhor não estudar Budismo.

Só é verdadeiro o mestre que penetra o Darma Correto  e recebe o selo de aprovação de um mestre  genuíno. Não importa se é jovem ou não; experiente ou não. Para um mestre correto nem os estudos formais dos textos nem a compreensão intelectual são prioridade. Com capacidade além de qualquer limitação sua mente-coração livremente penetra os nós do bambu. Não fica apegado a idéias pessoais nem estagnado em sentimentos emocionais. Sabedoria e  prática em perfeita harmonia. Essas são as características de um verdadeiro mestre.

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Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
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Textos de Mestre Dogen (11)

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Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma
Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante

4. A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”

Na prática do Caminho é necessário aceitar os ensinamentos verdadeiros de nossos antecessores, colocando de lado nossas idéias preconceituosas. O Caminho não pode ser realizado com idéias ou sem idéias. Apenas quando a mente da prática constante coincide com o Caminho, corpo e  mente conhecem a  paz. Quando o corpo e a mente não estão em paz, espinhos crescem no caminho da iluminação.

Como harmonizar a prática pura com o Caminho? Para assim o fazer, a mente não pode estar apegada nem rejeitando nada, necessita estar completamente livre do apego a fama e ao lucro. Ninguém se submete ao treinamento budista por causa dos outros. A mente dos praticantes budistas, como a da maioria das pessoas de nossa época, todavia, está longe da compreensão do Caminho. Elas fazem aquilo que os outros elogiam mesmo sabendo que é falso. Por outro lado, elas não praticam aquilo que os outros desdenham mesmo que saibam que este é o verdadeiro Caminho. Que lamentável!

Reflita tranqüilamente se suas palavras e ações estão unidas com o Budismo ou não. Se fizer isto, você irá perceber o quanto elas são vergonhosas. Os olhos penetrantes dos Budas-Ancestrais estão constantemente iluminando o universo inteiro.

Desde que os praticantes budistas não fazem nada para si mesmos, como eles poderiam fazer algo pela fama ou pelo lucro? Vocês devem praticar apenas pelo próprio Budismo. Os vários Budas não demonstram sua profunda compaixão por todos os seres, nem por seu próprio bem, nem para impressionar os outros. Esta é a tradição Budista.

Observe como até os animais e insetos nutrem sua prole, tolerando vários sofrimentos durante o processo. Os pais não pretendem ganhar nada com suas ações, mesmo após sua descendência ter alcançado a maturidade. No entanto, embora sejam somente pequenas criaturas, têm profunda compaixão por sua prole. Isto também é assim com relação à compaixão dos vários Budas por todos os seres. O precioso ensinamento desses vários Budas, todavia, não está limitado somente à sua compaixão; ao contrário, eles aparecem em incontáveis modos por todo o universo. Esta é a essência do Budismo.

Nós já somos as crianças de Buda; por esta razão, devemos seguir seus passos. Praticantes, não pratiquem o Darma de Buda para seu próprio interesse. Não pratiquem o Darma de Buda por fama ou lucro. Não pratiquem o Darma de Buda para obter recompensa meritosa ou poderes miraculosos. Simplesmente, pratiquem Budismo por causa do Budismo; este é o verdadeiro Caminho.

Parte 5. A necessidade de procurar um verdadeiro Mestre

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
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Textos de Mestre Dogen (10)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma

3. A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante

Pessoas comuns acreditam que os estudos trazem as riquezas. Buda Xaquiamuni ensina que na prática há iluminação. Nunca ouvi falar de ninguém que tenha se tornado membro de lideranças milionárias sem estudar, ou alcançado a iluminação sem praticar.

Embora seja verdade que existam diferentes métodos de treinamento, aqueles baseados na fé ou na compreensão do Dharma, na iluminação súbita ou gradual[1], ainda assim, a iluminação depende de um treinamento. Embora a profundidade e a velocidade de compreensão das pessoas seja diferente, o tesouro é obtido através do estudo acumulado. Nenhuma dessas coisas depende dos soberanos serem superiores ou não, ou da sorte ser boa ou ruim.

Se o tesouro pudesse ser obtido sem estudo, quem iria transmitir o método pelo qual antigos monarcas, tanto em épocas de ordem ou desordem, governaram com sucesso o país?  Caso a iluminação pudesse ser sem treinamento, quem poderia compreender os ensinamentos do Tathagata[2], distinguindo, como ele fez, a diferença entre delusão e iluminação? Embora pratique no mundo da delusão, ainda assim é o mundo da iluminação. Então, pela primeira vez, você perceberá que a jangada do discurso é apenas um sonho passado e será capaz de cortar para sempre a visão antiga de conceitos pessoais que amarrava você as palavras das escrituras.

Buda não impõe esta visão a você. Ela aparece naturalmente a partir de sua prática no Caminho, a prática convida a iluminação. Seu tesouro natural não vem do exterior. Uma vez que a iluminação é una  com a prática, a ação iluminada não deixa traços. Portanto, quando olhar novamente a prática com olhos iluminados, você descobrirá que não há ilusões para serem vistas, apenas uma grande nuvem branca de dez milhões de ri[3] cobrindo todo o céu.

Quando a iluminação está em harmonia com a prática, você não pode desmerecer nem mesmo uma simples partícula de poeira. Se agir dessa maneira você se afastará da iluminação tanto quanto o céu está afastado da terra. Se retornar ao seu Verdadeiro Lar, poderá transcender até mesmo a condição de Buda.

(escrito em 9 de março, segundo ano de Tempuku 1234)


[1] A posição de que a iluminação vinha gradualmente como  resultado de leituras de sutras e práticas acumuladas eram mantidas pela Escola Zen do Norte da China. Esta escola terminou e apenas a Escola Zen do Sul, que pregava a realização da iluminação súbita, permaneceu.

[2] Este é outro nome para Buda Xaquiamuni. Significa uma pessoa que alcançou o ir e vir do Tathagata, o que é, a realidade absoluta que transcende a  multiplicidade de formas do mundo dos fenômenos.

[3] Um “ri” corresponde aproximadamente a uma milha

Parte 4: A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Textos de Mestre Dogen (9)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução e Parte 1: A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi

2. A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma

Uma frase oferecida por um conselheiro leal pode alterar o curso de uma nação. Quando Budas-Ancestrais oferecem, mesmo que seja uma única palavra, não deveria haver ninguém que não se convertesse. Entretanto, apenas reis sábios ouvem os conselhos de seus conselheiros, e apenas praticantes excepcionais ouvem as palavras de Buda.

É impossível cortar as fontes de transmigração sem abandonar a mente deludida. Da mesma forma, quando um rei não presta atenção aos conselhos de seus consultores leais, não mais prevalecerá uma política virtuosa, e ele será incapaz de governar bem o país.

Ler Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen, baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Casamento Zen Budista

do site de Monja Coen (professora de ordenação da Monja Isshin)

Cerimônia Budista de Casam
por Márcia Maranhão Limongi

Considerado um sacramento, o matrimônio, na religião budista, é ministrado pelo abade ou (oficiante) no templo. Como estamos no Brasil, a cerimônia pode sofrer algumas variações, “ocidentalizou-se” um pouco, sem perder sua essência, inclusive é permitido o uso do tradicional vestido de noiva. Não é recomendável trajes da cor preta para noivos e padrinhos.

No altar onde se encontra a figura de Buda, só é permitida a presença do noivo, que fica ao lado esquerdo e a noiva , à direita , e dois (ou mais) padrinhos como testemunhas, permanecem atrás do casal ou de cada lado do altar, nunca atrás de Buda. Os noivos entram e caminham juntos até o altar, seguidos pelos padrinhos, que têm a função de orientar e aconselhar os recém-casados durante a vida. Vários toques anunciam o início da cerimônia. Nos toques, todos fazem reverências a Buda.

No altar ficam dispostos um vaso e um candelabro vazio. Os noivos deixam antecipadamente as flores (de preferência um maço de flores alegres, sem espinhos), e a vela vermelha sobre o altar. Ao chegar ao altar, a noiva faz a oferta da flor, e o noivo, por sua vez, oferta a vela acesa e assim inicia-se a cerimônia. “As ofertas são para evocar Buda e seus ancestrais para que eles abençoem os noivos. No altar também fica uma caixinha de incenso em pó, levado pela oficiante e aceso pelos noivos para evocar os seres iluminados”.

Exemplo de Altar

A batida do sino anuncia a leitura do sutra (poemas que contam a passagem do Buda pela terra) e, neste momento os convidados que estão participando da cerimônia religiosa juntam as mãos, inclusive os padrinhos. Este gesto quer mostrar que o ato do juntar as mãos significaria a pessoa colocando sua mão junto à mão do Buda.

Um dos rituais mais significantes dessa cerimônia é o san-san-kudo ou três-nove em português, que é mantido em um bule. A bebida é servida em 3 xícaras, na maioria das vezes saquê, e cada um dos noivos têm de beber de cada uma das 3 xícaras, segurando-as com as duas mãos. A oficiante derrama um pouco de saquê na primeira xícara e a oferece à noiva, que toma seu conteúdo; em seguida, a mesma xícara é oferecida ao noivo e assim por diante, até os dois tomarem 3 goles da mesma xícara, passando para a xícara seguinte (mais 3 goles) e depois para a última xícara, completando 9 goles cada um. Este ritual remete às três jóias na religião: Buda, aquele que está desperto; Dharma, o caminho da compreensão e do amor, e Sangha, a comunidade que vive em consciência e harmonia.

Para cada tacinha, um significado:
Taças1 – o Pinheiro, que permanece sempre verde em todas as estações. É a juventude, a força, a vida.
2 – o Bambu, que é flexível. Ele se dobra, mas não se quebra.
3 – a Flor da Ameixeira, porque é a primeira flor a desabrochar. Abre mesmo quando ainda há neve. Representa a beleza e a coragem.

A etapa seguinte são os votos, elaborados com antecedência pelos próprios noivos e lidos pelos dois, em conjunto, na cerimônia.

Em seguida, os noivos e padrinhos assinam o livro da oficiante e esta abençoa as alianças. Os noivos colocam as alianças.

Outro momento importante é quando o oficiante entrega os rosários de 108 contas aos noivos e os coloca na mão esquerda de cada um. São 108 portais para a iluminação. Cada obstáculo é um portal a ser superado. Veja a descrição dos 108 portais em http://www.monjacoen.com.br/108.htm.

No final da celebração, todos os presentes fazem um minuto de silêncio e mentalizam a harmonia e felicidade dos noivos.

Nota: a Monja Isshin oferece a cerimônia de Casamento Zen Budista em Porto Alegre.

Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 6

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 6 (final)
por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão

Texto introdutório: Repensando o Alimento
Parte 1: O Caminho do homem que cozinha
Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar
Parte 3: Lavando o Arroz, Lavando o Coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento
Parte 5: Discriminação para a Comida

CZ-11-1[6] Respeitar a Comida
Quando eu era criança e deixava restos de comida na tigela sempre levava bronca. Me lembro disso até hoje e nunca deixo sobras de arroz quando como. É importante ter cuidado ao colocar a mistura no prato. Tem pessoas que compram o que gostam e deixam restos de comida que acabam indo fora. Nunca devemos jogar comida fora.

A tarefa do tenzo é manusear a comida com todo cuidado, analisando as condições e checando os pontos relevantes. É necessário ajustar o volume de comida com a quantidade de pessoas na Sala de Treino. O tenzo deve pensar bem para não errar na contagem, consultando os vários responsáveis. Mas não é só o número de pessoas que deve ser considerado. Deve-se levar em conta a situação individual de cada pessoa. Cada um tem um tipo de estrutura física, uma idade diferente. A quantidade de comida que cada um come é, portanto, diferente. Pode até ser a mesma pessoa, mas dependendo da estação do ano, das suas condições de saúde e trabalho, às vezes o volume de consumo de alimento aumenta ou diminui. Desta maneira o tenzo checa todos os detalhes e se certifica da quantidade necessária. A atividade do tenzo nunca é uma atividade automática.

É preciso manter a concentração para não deixar faltar comida. Se houver erro na estimativa de pessoas, ocorrendo assim insuficiência de comida, isso revela falta de respeito para com a pessoa que se alimenta. Por outro lado, se sobrar comida, é falta de consideração para com a comida.

Hoje em dia as pessoas estão mais práticas. Ninguém consegue trabalhar direito tendo de imaginar cada pessoa em sua mente. Fala-se de eficiência de trabalho, calculando a quantidade média de comida para cada pessoa. Com a abundância de comida na sociedade atual, é aceito deixar sobras e jogar o resto da comida fora. As pessoas pensam que tudo é garantido. Não se fala na importância da comida na sociedade atual.

Outra coisa difícil de transmitir é a sinceridade de quem prepara a comida. Com o coração de tenzo na hora de preparar a comida, ajustar o tempero pode melhorar até mesmo o estado de saúde das pessoas que se alimentam. É com essa transmissão de energia que acontece o verdadeiro relacionamento. Assim, poderá haver verdadeira satisfação mútua. Com a atitude de colocar com dedicação todo o coração no relacionamento entre a comida e a pessoa que se alimenta, a comida se torna símbolo desse respeito. O trabalho final é colocar o coração do tenzo na comida. Dessa forma, pensando prioritariamente na pessoa que se alimenta e aplicando a energia espiritual com a vida da comida, acontece a manifestação do tenzo.

Na infância fomos ensinados a juntar as mãos antes e depois das refeições para agradecermos. Hoje em dia, nos restaurantes e shopping centers, não se vê ninguém agradecendo pela comida. E o cozinheiro que trabalha arduamente na cozinha do restaurante não tem tempo para pensar no valor da comida.

É uma pena que o ato de comer ficou no mesmo nível que o ato de pôr gasolina no carro. Na verdade, a refeição não é só para encher a barriga. É para preencher o vazio do coração. Se pudermos perceber isso, na hora de prepararmos a comida e nos alimentarmos, não vamos esquecer de respeitar a comida. A pessoa que come a comida que concede a vida, respeita com gratidão o coração da pessoa que preparou a comida.

A pessoa que prepara, ao pensar nos ingredientes da comida, respeita o coração de expectativa de felicidade da pessoa que come.

E com esse relacionamento de respeito nasce um coração de cooperação humana.

Verso das Cinco Contemplações
(Gokan no ge)

Antes da refeição, juntando as palmas das mãos, com um coração de gratidão vamos recitar o “Verso das Cinco Contemplações.”

(1) Refletimos sobre o esforço que nos trouxe esta comida e como ela veio até nós.
(2) Refletimos sobre nossa virtude e prática e se somos dignos desta oferta.
(3) Consideramos a cobiça como obstáculo para a liberdade da mente.
(4) Consideramos esta refeição como remédio para sustentar nossa vida.
(5) Para atingir a iluminação, recebemos agora esta comida.

Tatsuzen Satô nasceu em 1948 na Província de Gunma. Atualmente é professor da Universidade Ikuei. Serve como Sacerdote Principal Adjunto em Jôsen-ji (Cidade de Gunma, Província de Gunma). Escreveu muitos livros significativos sobre a cultura gastronômica e educação infantil do ponto de vista do Budismo.

- Adaptado de texto publicado na revista Caminho Zen, Vol. 11, No. 1-2006