Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 6

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 6 (final)
por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão

Texto introdutório: Repensando o Alimento
Parte 1: O Caminho do homem que cozinha
Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar
Parte 3: Lavando o Arroz, Lavando o Coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento
Parte 5: Discriminação para a Comida

CZ-11-1[6] Respeitar a Comida
Quando eu era criança e deixava restos de comida na tigela sempre levava bronca. Me lembro disso até hoje e nunca deixo sobras de arroz quando como. É importante ter cuidado ao colocar a mistura no prato. Tem pessoas que compram o que gostam e deixam restos de comida que acabam indo fora. Nunca devemos jogar comida fora.

A tarefa do tenzo é manusear a comida com todo cuidado, analisando as condições e checando os pontos relevantes. É necessário ajustar o volume de comida com a quantidade de pessoas na Sala de Treino. O tenzo deve pensar bem para não errar na contagem, consultando os vários responsáveis. Mas não é só o número de pessoas que deve ser considerado. Deve-se levar em conta a situação individual de cada pessoa. Cada um tem um tipo de estrutura física, uma idade diferente. A quantidade de comida que cada um come é, portanto, diferente. Pode até ser a mesma pessoa, mas dependendo da estação do ano, das suas condições de saúde e trabalho, às vezes o volume de consumo de alimento aumenta ou diminui. Desta maneira o tenzo checa todos os detalhes e se certifica da quantidade necessária. A atividade do tenzo nunca é uma atividade automática.

É preciso manter a concentração para não deixar faltar comida. Se houver erro na estimativa de pessoas, ocorrendo assim insuficiência de comida, isso revela falta de respeito para com a pessoa que se alimenta. Por outro lado, se sobrar comida, é falta de consideração para com a comida.

Hoje em dia as pessoas estão mais práticas. Ninguém consegue trabalhar direito tendo de imaginar cada pessoa em sua mente. Fala-se de eficiência de trabalho, calculando a quantidade média de comida para cada pessoa. Com a abundância de comida na sociedade atual, é aceito deixar sobras e jogar o resto da comida fora. As pessoas pensam que tudo é garantido. Não se fala na importância da comida na sociedade atual.

Outra coisa difícil de transmitir é a sinceridade de quem prepara a comida. Com o coração de tenzo na hora de preparar a comida, ajustar o tempero pode melhorar até mesmo o estado de saúde das pessoas que se alimentam. É com essa transmissão de energia que acontece o verdadeiro relacionamento. Assim, poderá haver verdadeira satisfação mútua. Com a atitude de colocar com dedicação todo o coração no relacionamento entre a comida e a pessoa que se alimenta, a comida se torna símbolo desse respeito. O trabalho final é colocar o coração do tenzo na comida. Dessa forma, pensando prioritariamente na pessoa que se alimenta e aplicando a energia espiritual com a vida da comida, acontece a manifestação do tenzo.

Na infância fomos ensinados a juntar as mãos antes e depois das refeições para agradecermos. Hoje em dia, nos restaurantes e shopping centers, não se vê ninguém agradecendo pela comida. E o cozinheiro que trabalha arduamente na cozinha do restaurante não tem tempo para pensar no valor da comida.

É uma pena que o ato de comer ficou no mesmo nível que o ato de pôr gasolina no carro. Na verdade, a refeição não é só para encher a barriga. É para preencher o vazio do coração. Se pudermos perceber isso, na hora de prepararmos a comida e nos alimentarmos, não vamos esquecer de respeitar a comida. A pessoa que come a comida que concede a vida, respeita com gratidão o coração da pessoa que preparou a comida.

A pessoa que prepara, ao pensar nos ingredientes da comida, respeita o coração de expectativa de felicidade da pessoa que come.

E com esse relacionamento de respeito nasce um coração de cooperação humana.

Verso das Cinco Contemplações
(Gokan no ge)

Antes da refeição, juntando as palmas das mãos, com um coração de gratidão vamos recitar o “Verso das Cinco Contemplações.”

(1) Refletimos sobre o esforço que nos trouxe esta comida e como ela veio até nós.
(2) Refletimos sobre nossa virtude e prática e se somos dignos desta oferta.
(3) Consideramos a cobiça como obstáculo para a liberdade da mente.
(4) Consideramos esta refeição como remédio para sustentar nossa vida.
(5) Para atingir a iluminação, recebemos agora esta comida.

Tatsuzen Satô nasceu em 1948 na Província de Gunma. Atualmente é professor da Universidade Ikuei. Serve como Sacerdote Principal Adjunto em Jôsen-ji (Cidade de Gunma, Província de Gunma). Escreveu muitos livros significativos sobre a cultura gastronômica e educação infantil do ponto de vista do Budismo.

- Adaptado de texto publicado na revista Caminho Zen, Vol. 11, No. 1-2006

Palestra e Aula-mestre de Baika

Nos dias 10 e 11 de julho, recebemos o professor-mestre de Baika (música budista) Yuko Moriyama Sensei, do  Templo Myogen-ji em Shimane-ken, enviado pelo escritório central da Escola Soto Zen no Japão, para uma palestra-demonstração e oficina-aula mestre de Baika. Vieram com ele, os monges Doshu Koshika Sensei e Tenbun Okajima Osho. Foram dois dias de Darma puro, muita reflexão sobre a nossa prática e o canto alegre da música “Sanbô Gowasan” (Canção dos Três Tesouros).

Fotos da palestra-demonstração:

Fotos da Aula-mestre:

ver fotos e vídeo da atividade do ano 2008 e ler texto descritivo sobre Baika

Retiro de Inverno 2009 – São Paulo

Retiro de Inverno 2009Praticantes da Sanga Águas da Compaixão participaram do Retiro de Inverno do Templo Busshinji, orientado pelo Saikawa Roshi, Superintendente da Escola Soto Shu para a América do Sul, de 22 a 26 de junho.

Aproveitamos da oportunidade para fazer a nossa doação para a construção do novo prédio anexo do templo. Convidamos todos a fazerem suas contribuições através de depósito:

Banco do Brasil
Agência 4054-1 – Xavier de Toledo
Conta corrente 12000-6
em nome da Comunidade Budista Soto Zenshu da América do Sul
CNPJ 44.019.859/0001-18

Documento do depósito deve ser enviado para:

Comunidade Budista Soto Zenshu da América do Sul
R. São Joaquim 285
01508-001 São Paulo, SP

Versos sobre a Fé na Mente (Hsin Hsin Ming)

Hsin Hsin Ming – Versos sobre a Fé na Mente
escrito por Jianzhi Sengcan (Kanchi Sôsan Daioshô)
3º ancestral da linhagem chinesa

O Grande Caminho não é difícil
Para aqueles que não têm preferências.
Quando o amor e o ódio estão ambos ausentes
Tudo se torna claro e sincero.

Fazendo-se a menor distinção entretanto
O céu e a terra são colocados infinitamente distantes.
Se queres ver a verdade,
Então não tenha opiniões a favor ou contra coisa alguma.
Quando o profundo significado das coisas não é compreendido
A essencial paz da mente é perturbada inutilmente.

O Caminho é perfeito como o vasto espaço
Onde nada falta e nada está em excesso.
Na verdade, é devido à nossa opção em aceitar ou rejeitar
Que não vemos a verdadeira natureza das coisas.

Não vivas enredado pelas coisas externas,
Nem preso às sensações interiores de vazio.
Seja sereno na unidade de todas as coisas
E tais idéias errôneas irão desaparecer por si mesmas.

Quando tentas parar a atividade para alcançar a passividade,
O teu próprio esforço irá te devolver à atividade.
Enquanto permaneceres num extremo ou no outro
Nunca conhecerás a Unidade.

Aqueles que não vivem no Caminho Único
Falham tanto na atividade quanto na passividade,
Tanto na  afirmação quanto na negação.

Negar a realidade das coisas é perder sua realidade.
Afirmar o vazio das coisas é perder sua realidade.
Quanto mais falares e pensares sobre isso,
Mais te desviarás para longe da verdade.
Pare de falar e de pensar,
E nada haverá que não possas conhecer.

Retornar à raiz é encontrar o significado,
Mas perseguir as aparências é perder a fonte.
No momento da iluminação interior
Há um caminho além da aparência e do vazio.

Às mudanças que parecem ocorrer no mundo vazio
Chamamos de reais somente porque somos ignorantes.
Não busques a verdade;
Apenas deixe de acalentar opiniões.

Não permaneças no estado dualístico;
Evite cuidadosamente tais investidas.
Se houver, mesmo que seja um traço,
Disto ou daquilo, do certo e do errado,
A essência da Mente se perderá na confusão.
Muito embora todas as dualidades provenham do Um,
Não fiques apegado a este Um.
Quando a mente existe impertubável no caminho,
Nada no mundo pode ofender,
E quando uma coisa não pode mais ofender,
Ela cessa de existir no velho modo.

Quando não surgem mais pensamentos discriminatórios,
A velha mente cessa de existir.
Quando os objetos do pensamento desaparecem,
O motivo do pensamento desaparece;
Assim, quando a mente desaparece, os objetos desaparecem

As coisas são objetos devido ao sujeito (mente):
A mente (sujeito) é assim devido às coisas (objeto).
Compreenda a relatividade de ambos
E a realidade básica: a unidade do Vazio.

Neste Vazio os dois são indistinguíveis
E cada um contém em si mesmo todo o mundo.
Se não discriminares o áspero do fino
Não serás tentado ao preconceito e à opinião.

Viver no Grande Caminho não é fácil nem difícil,
Mas aqueles com visões limitadas são temerosos e irresolutos;
Quanto mais se apressam, mais devagar eles vão,
E o apego não pode ser limitado;
Mesmo o apego à idéia de iluminação é andar sem rumo.

Deixe que as coisas sigam o seu próprio caminho
E não haverá mais o vir ou o ir.
Obedeça à natureza das coisas (tua própria natureza),
E caminharás livremente sem seres perturbado.

Quando o pensamento está escravizado, a verdade está oculta,
Pois tudo é indistinto e nada está claro
E a cansativa prática de julgar traz aborrecimento e cansaço.
Que benefício pode nos trazer a distinção e a separação?

Se queres te movimentar no Caminho Único
Não desgostes nem mesmo do mundo dos sentidos e das idéias.
Na verdade, aceitá-lo plenamente
É identificar-se com a verdadeira Iluminação.
O homem sábio não se esforça para alcançar qualquer meta,
Mas o homem tolo é escravo e ele mesmo se escraviza.

Há somente um darma,  uma verdade, uma lei e não muitas.
As distinções surgem das aferradas necessidades do ignorante.
Buscar a Mente com a mente que discrimina é o maior de todos os erros.

O repouso e a intranquilidade derivam da ilusão;
Com a Iluminação não há o gostar e o desgostar.
Todas as dualidades surgem da dedução ignorante.
Elas são como sonhos ou flores no ar,
É tolice tentar capturá-las
O ganho e a perda, o certo e o errado:
Tais pensamentos têm que ser abolidos completamente.

Se o olho nunca dorme, todos os sonhos naturalmente cessarão.
Se a mente não fizer qualquer discriminação,
As dez mil coisas são o que elas são, uma única essência.

Compreender o mistério desta Única Essência
É ser liberado de todas as malhas a que estamos presos.
Quando todas as coisas são vistas igualmente
Alcançamos a atemporal Auto-essência.
Não são mais possíveis comparações ou analogias
Neste estado em que não há nem causas nem relações.

Considere o movimento estacionário e o estacionário em movimento
E ambos, o movimento e o repouso, desaparecerão.
Quando tais dualidades deixam de existir
A Unidade em si mesma não pode existir.
A esta finalidade última, nenhuma lei ou descrição pode ser aplicada.

Para a mente unificada de acordo com o Caminho
Cessam todos os esforços autocentrados.
As dúvidas e irresoluções desaparecem
E a vida na verdadeira fé é possível.
Com um simples golpe estamos livres da escravidão;
Nada nos prende e nós não nos prendemos à nada.

Tudo é vazio, claro, auto-iluminante,
Sem qualquer esforço do poder da mente.
Aqui o pensamento, o sentimento, o conhecimento e a imaginação
Não têm qualquer valor.
Neste mundo da Essencialidade
Não há nem ser nem outra coisa que seja o não-ser.
Para entrar diretamente em harmonia com esta realidade
Diga simplesmente quando a dúvida surgir: “ não dois”.
Neste “ não dois” nada é separado, nada é excluído.
Não importa quando ou onde,
A Iluminação significa entrar nesta verdade.
E esta verdade está além do aumento ou diminuição no tempo e no espaço;
Num simples pensamento estão dez mil anos.

O Vazio aqui, o Vazio lá,
Mas o universo infinito permanece sempre diante dos teus olhos.
Infinitamente grande e infinitamente pequeno;
Sem diferença, pois a definições desaparecem
E nenhum limite é visto.
Isso também ocorre com o Ser e o não-Ser.
Não perca tempo com dúvidas e argumentos que nada têm que ver com isso.

Uma coisa, todas as coisas;
Movem-se e se mesclam sem distinção.
Viver nesta realização
É não ter ansiedade acerca da não-perfeição
Viver nesta fé é a estrada para a não-dualidade,
Porque o não-dual é uno com a mente confiante.

Palavras!
O Caminho está além da linguagem,
Pois nele não há nem o ontem, nem o amanhã, nem o hoje.

- Tradução para o inglês de Richard B. Clarke
- Tradução para o português de Murillo Nunes de Azevedo

Mini-curso com Prof. Ricardo Sasaki

Mestre Eihei Dogen

Mestre Eihei Dogen

Temos muito prazer em receber o Prof. Ricardo Sasaki (Dhanapala), professor leigo do Darma (tradição Teravada) e Diretor-Fundador do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda, de Belo Horizonte, MG, para oferecer um mini-curso sobre “Estágios da Meditação e o Treinamento Buddhista em Dogen”.

Neste mini-curso ele irá expor uma visão da meditação buddhista segundo os textos antigos atribuídos ao Buddha e preservados pela tradição Theravada, alinhavando-os com os dez pontos do treinamento buddhista do grande mestre Zen japonês Dogen

* Quando: 17 e 18 de junho, 2009 (4ª e 5ª-feira)

* Valor: 20,00 por noite ou 35,00 para os dois dias
* Nota: se não puder participar devido ao custo, queira contactar-nos.

Horário: 20h00 às 22h00

Local: “Sangha Aikikai”, Dojô Porto Alegre Aikikai da Associação RS Aikikai
Av. Cristóvão Colombo, 378
Bairro Floresta (em frente ao Shopping Total) – Porto Alegre, RS

Informações e inscrição:
Sangha Águas da Compaixão
aguasdacompaixao [arroba] gmail [ponto] com
tel: (51) 9331-7476

Festas Juninas – Busshinji – SP

Busshinji-arraialzen-cartaz2009Como parte das atividades de levantar os fundos para o término da construção do prédio anexo e futuro centro de treinamento para América do Sul, o “Grande Espelho” do Templo Busshinji (São Paulo), serão realizadas duas festas juninas “Arraial Zen”. Ingresso: R$ 5,00.

Outras doações podem ser feitas pelo telefone:
Ligue para (0xx11) 3208-4515 ou 3208-4345 e fale com Satico Suzuki ou Mitsuyo Kamimura.

Faça a sua colaboração!

Ver fotos do novo prédio no blog Sangha Margha

Sesshin de Inverno – Busshinji – São Paulo

Acontece de 22 a 26 de junho no Templo Busshinji o Sesshin de Inverno 2009.

As inscrições estão abertas e o período de cinco dias tem um custo de 150 reais. Avisamos que não dispomos de hospedagens, por isso os interessados devem providenciar alojamentos nos hotéis próximos, pensões ou na casa de amigos.

A Cerimônia de Abertura deve ocorrer no dia 22, às 10hs. Os inscritos devem chegar antes deste horário para os preparativos como entrega e preparo de oryoki, para os que não tiverem, ocupação dos locais de prática, funções, etc.

O retiro será coordenado pela equipe de monges do Templo Busshinji e, como responsável, o Superior Dosho Saikawa.

O Templo Busshinji fica na Rua S. Joaquim, 285, Bairro da Liberdade, São Paulo. Inscrições no local. Tels: (0xx11) 3208-4345/4515

Grande Espelho em São Paulo

Reproduzo duas fotos do novo prédio anexo ao Templo Busshinji em São Paulo, em fase final de construção e que deve ser formalmente inaugurado no mês de Novembro. Será um centro de treinamento oficial da escola Soto Zen para América do Sul. O nome do prédio é Dai Kankaku (Prédio do Grande Espelho), que significa a ausência total de ego e profunda integração com a natureza original das coisas.
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O Templo Busshinji continua recebendo doações para a finalização das obras. Faça a sua colaboração!

Ligue para (0xx11) 3208-4515 ou 3208-4345 e fale com Satico Suzuki ou Mitsuyo Kamimura.

Ver mais fotos no blog Sangha Margha

Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 5

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 5
por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão

Texto introdutório: Repensando o Alimento
Parte 1: O Caminho do homem que cozinha
Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar
Parte 3: Lavando o Arroz, Lavando o Coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento

caminhozen-img003(5) Discriminação para a Comida

O coração do ser humano manifesta uma variedade de sentimentos. E um deles é o de gostar de certos tipos de comida ou detestar outros. Mas não se pode dizer que esse é um sentimento totalmente ruim. Se por um lado ele pode motivar comentários das pessoas umas em relação às outras, não quer dizer que seja algo proposital.

Abrindo a geladeira, encontramos muitas coisas que gostamos, como carne, peixe e verduras. Dentro do coração, pensamos o que iremos preparar para o jantar. Mas por estarmos ocupados com o trabalho, por exemplo, não comemos toda a comida na refeição, deixando sobras de carne e peixe, desperdiçando vegetais.

Hoje em dia as pessoas dão muita importância à conveniência. O simples fato de tocarmos com as mãos a substância pura dos ingredientes já produz um bom sentimento e alegria. Mas tem pessoas que reclamam se o ingrediente é comum. No fundo a comida tanto pode ser boa como ruim. Cada comida tem um valor insubstituível. No entanto, mesmo sabendo disso, nós às vezes repetimos o sentimento de gostar e detestar, julgando o valor de cada alimento segundo a nossa conveniência.

Comparativamente, pode-se até chegar a pensar que para fazer uma comida deliciosa basta usar ingredientes caros. Mas não é bem assim. Em qualquer lugar, com qualquer ingrediente, a comida só será saborosa se houver o trabalho vivo do tenzo. Em geral deixamos transparecer o preconceito. Cozinhar parece ser algo livre, sem regras. Mas na verdade cozinhar é algo bem diferente. Esse sentimento no coração é influenciado pelo mundo exterior, sendo nada mais do que a expressão do individualismo. Se olhamos de forma superficial, não temos como vislumbrar o maravilhoso conteúdo inerente à comida. Visualizar o planejamento depende da atitude da pessoa que cozinha. A insatisfação por causa do ingrediente ser comum não é expressão da pobreza do coração da pessoa?

A mesma coisa se aplica ao relacionamento humano. Nossa atitude com as pessoas à nossa volta varia de acordo com o status, título e a condição externa. Uma pessoa que elogia outra pessoa mesmo tendo aversão à ela é alguém que eventualmente sente orgulho por estar numa posição mais alta do que os outros. A pessoa aparenta estar satisfeita, mas o sentimento que se manifesta não é bom.

A meta do aperfeiçoamento do caráter é eliminar o coração de discriminação com relação ao ingrediente. Mas para perdermos sinceramente o preconceito e fazer com que os pensamentos mundanos e a obsessão não se manifestem, é necessário preparação mental e treino. Escute as palavras do líder e das pessoas experientes, deslumbrando o seu próprio coração. Para este propósito, o tenzo nunca perde as sessões de meditação pela manhã e à noite.

Na vida diária, em vários aspectos, há um grande significado em considerarmos a harmonia.

A harmonia tem um grande significado nos mais variados aspectos da vida diária. Devemos pensar na harmonia entre o trabalho e o silêncio. Cozinhar é um mundo de trabalho. Trabalhando seriamente, com mais empenho, movendo o corpo, faz com que o tempo passe a ter um significado valioso.

A maneira de usar os ingredientes é a expressão do coração bondoso da pessoa que prepara a comida. Por outro lado, quando se toca a comida simples, o real valor da pessoa não é avaliado? Seja qual for a situação, o sentimento de preconceito em relação à comida não se manifesta. Valorizando a característica peculiar de cada coisa, estaremos vivendo de acordo com os pontos positivos de cada um. Mantendo tais sentimentos, quando o relacionamento humano existe, não se consegue enxergar os erros.

- Adaptado de texto publicado na revista Caminho Zen, Vol. 11, No. 1-2006

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Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun)
Parte 6: Respeitar a Comida

Textos de Mestre Dogen (7)

O Dharma quando se encontra um Instrutor Sênior que passou por cinco angôs[1].
(Taitaiko Gogejarihô)

de “Eihei Shingi” – “Regras Puras para a Comunidade Zen”
Dogen Zenji

1- Quando encontrar um instrutor sênior que tenha passado por cinco angôs, você deve vestir seu okesa e trazer o seu zagu[2].

2- Não use o okesa cobrindo os dois ombros. Um sutra diz: “Quando monges encontram Buddha, ou outros monges ou seniores, eles não devem usar o okesa sobre os dois ombros. [Se eles o fizerem], quando morrerem, eles entrarão no Inferno dos Grilhões de Ferro”[3].

3- Não se apresente em pé olhando para um sênior, enquanto estiver encostado em alguma coisa com suas pernas cruzadas.

4- Não se apresente em pé olhando para um sênior com seus braços balançando.[4]

5- Nunca ria ruidosamente, sem envergonhar-se ou causar constrangimentos.

6- Apresente-se de acordo com o “Dharma do Servir ao seu Mestre.”[5]

7- Se você é admoestado, faça uma reverência polidamente e ouça e aceite; e, de acordo com o Dharma, contemple e reflita sobre o que foi dito.

8- Sempre estimule uma mente humilde.

9- Não se coce ou cate piolhos enquanto estiver com um sênior.

10- Não cuspa na frente de um sênior.

11- Não mastigue seu palito de dentes [yôji] ou enxágüe sua boca enquanto estiver frente a um sênior.

12- Se o sênior não lhe convidou a se sentar [quando você estiver entre eles], não se sente informalmente.

13- Quando sentado na mesma plataforma, ao lado de um sênior de cinco angôs, não o toque [acidentalmente]

14- Não se sente no lugar onde um sênior de cinco angôs normalmente se senta ou descansa.

15- Você deve saber que qualquer um que tenha feito cinco ou mais angôs, tem a posição de ajari [instrutor]; alguém que tenha dez angôs ou mais, tem a posição de oshô [alto sacerdote]. Isto não é nada além um suave orvalho do dharma sem máculas.

16- Quando uma respeitável pessoa de cinco angôs  pedir para você sentar, faça gasshô e reverência; só então se sente. Cortesmente sente-se ereto e não encoste na parede.

17- Quando se sentar, não seja rude ou indulgente, recostando-se em algum móvel.

18- Se houver discussão você deve permanecer humilde e não tentar ganhar uma posição superior.

19- Não abra sua boca demasiado enquanto estiver bocejando; mas, cubra-a com sua mão.

20- Quando estiver diante de um sênior, não esfregue sua face, bata em sua cabeça com suas mãos, ou brinque com suas pernas ou braços.

21- Diante de um sênior não faça grandes barulhos de resfolegar ou suspiros. Comporte-se com decoro, de acordo com o Dharma.

22- Quando estiver diante de um sênior, mantenha seu corpo ereto e estável.

23- Se você vir um sênior chegando ao lugar onde você se encontra conversando com outro sênior; dê a eles o seu assento, abaixe a sua cabeça e aguarde por um momento pelas instruções dos seniores.

24- Quando você estiver do outro lado da parede do aposento de um sênior, não recite as escrituras em voz alta.[6]

25- A menos que um sênior lhe peça para faze-lo; não explique o dharma para as pessoas.

26- Se um sênior lhe perguntar algo, você deve dar a resposta apropriada.

27- Sempre observe a expressão de um sênior e não lhe cause desapontamento ou angústia séria.

28- Enquanto estiver diante de um sênior, não troque mesuras com seus pares.

29- Diante de um sênior não aceite prostrações de outros

30- Se houver algum trabalho pesado a fazer, onde esteja um sênior, faça-o, primeiro, você mesmo. Quando há alguma coisa agradável, ofereça-a ao sênior.

31- Se você se encontrar com um instrutor sênior que tenha passado por treinamento em cinco angôs, você deverá reverenciá-lo como um ancião. Não perca seu entusiasmo.

32- Se você tiver intimidade com um sênior que tenha feito cinco ou dez angôs, você deve, mesmo assim, perguntar a eles sobre o significado dos sutras e dos preceitos. Não se torne negligente ou preguiçoso.

33- Quando você percebe que um sênior está doente, você deve, respeitosamente, alimentá-lo e ajudá-lo a se recuperar de acordo com o dharma.

34- Quando você estiver diante de um sênior ou perto de seu quarto, não pronuncie palavras que não sejam benéficas ou que não tenham bom significado.

35- Quando diante de um sênior não discuta pontos bons e maus ou a força e fraqueza  de honoráveis mestres de outros templos[7].

36- Você não deve ignorar um sênior e entrar numa conversa ou questionamento sem propósito.

37- Não raspe sua cabeça, corte suas unhas, ou troque suas roupas de baixo quando na presença de um sênior.

38- Quando um sênior ainda não estiver adormecido, não vá dormir antes dele.

39- Quando um sênior ainda não começou a comer, não coma antes dele.

40- Quando um sênior ainda não tomou banho, não se banhe antes dele.

41- Quando um sênior ainda não se sentou, não se sente antes dele.

42- Se você encontrar um senior no caminho, reverencie-o com inclinação do corpo e, então, siga atrás do sênior. Se você receber alguma instrução do sênior, simplesmente obedeça-o e então retorne [ao que você estava indo fazer]

43-Se você perceber que um sênior esqueceu alguma coisa por engano, mostre-lhe cortesmente.

44- Se você vir um sênior cometendo algum erro, não ria ruidosamente.

45- Se você visitar o quarto de um sênior, primeiro estale os seus dedos (médio e polegar) três vezes no lado de fora da porta, antes de entrar.

46- Se você entrar no quarto de um sênior, entre beirando um lado do vão da porta. Não entre pelo centro do espaço da porta[8].

47- Quando você entrar ou sair do quarto de um sênior, tanto de cinco, como de dez angôs, você deve usar a escada de convidados, não a escada do anfitrião.[9]

48- Se um senior ainda não tiver terminado de comer sua refeição, não termine a sua antes dele.

49- Quando um sênior ainda não se puser em pé, não se levante antes dele.

50- Se um sênior estiver explicando os sutras para um doador, sente-se adequadamente ereto e ouça-o cuidadosamente. Não se levante rapidamente e saia. [10]

51- Não repreenda alguém que você pretende repreender, enquanto estiver diante de um sênior.

52- Diante de um sênior, não chame ninguém à distância em voz alta.

53- Não desate o seu okesa, deposite-o no quarto do sênior e, então, saia.

55- Quando um sênior estiver ensinando sobre um sutra, não corrija seus enganos desde um assento inferior.

55- Diante de um sênior não levante seus joelhos e os envolva com seus braços.

56- Quando um sênior estiver em um lugar inferior e você estiver num lugar mais alto, vocês não devem se curvar um para o outro.

57- Não faça reverência para um sênior desde o alto de seu assento.

58- Quando você estiver em seu lugar e vir um sênior em pé embaixo , não o reverencie em shashu.[11]

59- Você deve estar atento quando um professor sênior estiver presente.

60- Quando o discípulo de um sênior estiver presente, esteja atento sobre suas maneiras para com o professor e não perturbe o sênior.

61- Quando um sênior se encontra junto com um sênior, nenhum deles precisa seguir estas instruções (de encontro com um sênior).

62- Ver seniores é infindável. Na primeira prática de verão nós vemos seniores; no momento da suprema realização[12], nós vemos seniores.

O dharma anterior para encontros com sêniors de cinco ou dez angôs, é exatamente o corpo e a mente dos buddhas e ancestrais. Não deixe de estudar isto. Se você não estudar isto, o Caminho dos mestres ancestrais degenerará e o doce orvalho do dharma será extinto. No vasto céu do reino do dharma, isto é raro e difícil de encontrar. Somente pessoas que desenvolveram faculdades saudáveis através de vidas passadas podem ouvir isto. Em verdade este é o último degrau do Mahayana.

Ensinado à Assembléia no Segundo ano de Kangen (i.e., 1244), no terceiro mês, no vigésimo primeiro dia. na Província de Echiza, no Templo Yoshimine.[13]


[1] N. T. – Um “angô” é um período de prática intensiva, de 90 dias ou mais; originalmente realizado na época das chuvas de verão na Índia e, atualmente, realizadas uma, duas ou até três vezes por ano nos mosteiros japoneses.

[2] “Sênior” é taiko (maior do que si mesmo). “Instrutor” é ajari, usado em sânscrito é acharya, qualquer monge sênior qualificado para ter discípulos. No tempo de Dogen, os períodos de treinamentos de três meses eram feitos uma vez por ano, durante o verão. “Dharma” visto no título deste ensaio se refere a “ensinamentos” sobre a atitude adequada  diante da prática com outros; mas, eles podem, obviamente denotar as “maneiras” e, até, a “etiqueta” para os encontros com sêniors.

[3] No Soto Zen moderno, o okesa é normalmente usado sobre o ombro esquerdo, como é feito pelos monges Buddhistas. Quando na outorga da ordenação o durante a cerimônia de arrependimento, o monge que preside a cerimônia usa o okesa sobre os dois ombros. [NT: o uso do okesa sobre os dois ombros significa estar representando o próprio Buddha]. “Sênior” aqui e em alguns outros lugares deste ensaio é jôza, o que parece ser usado intercambiado com taiko. [NT: no Soto Zen moderno, o termo jôza é usado para referir-se a um noviço que ainda não foi shuso e ainda não realizou o combate de darma.]

[4] NT – Sem estar em Shasshu

[5] O “Dharma de Serviço ao seu Mestre” é um texto tanto atribuído aos Ancestrais Indianos como a outros textos que têm o mesmo nome por Daoxuan.

[6] NT – No japâo, as paredes divisórias internas nas casas de construção tradicional são de papel.

[7] “Honorável Mestre” é sonshuku (anciãos veneráveis)

[8] As instruções para se entrar nos quartos de seniores nos lembra das instruções para entrar no salão dos monges.  Veja o terceiro parágrafo de “O Dharma para Receber Alimentos”. (Fushuku Hanpô)

[9] “Escada de convidados e de anfitrião” não está claro. Pode ser que se refira aos lados esquerdo e direito das escadas que dão em um quarto de sênior.

[10] “Doador” é danotsu, derivado do sânscrito danapati. Dana, generosidade, é a primeira das seis perfeições no Buddhismo Mahayana. É o sistema de manutenção (patrocínio) para Templos Buddhistas Japoneses, desde o século dezessete, chamado de danka.

[11] (NT: os assentos para o zazen (tan) ficavam numa altura de mais ou menos 80 cm do chão).

[12] “Suprema realização” é gokuka (resultado final), que se refere ao fruto da prática e é igual ao estado de buddha.

[13] Templo Yoshimine é um pequeno templo perto de Eiheiji, onde a comunidade de Dogen permaneceu por volta de um ano enquanto se construía o Eiheiji.

Tradução: Pedro Federsoni, Sanga Águas da Compaixão
Revisão: Monja Isshin,  janeiro, 2009