Desde a época do Budismo Clássico, os Três Treinamentos – Estudo, Moralidade e Meditação – têm sido considerados a base da prática budista. O Estudo divide-se em três aspectos: ouvir os ensinamentos, refletir sobre eles e praticá-los ou realizá-los.
Apesar de alguns mitos ocidentais como a crença que o estudo não teria importância no Zen, o fato é que o Zen segue os Três Treinamentos, ou, em Japonês, o Sangaku. Nos mosteiros de treinamento há aulas para o estudo de sutras, Yogacara e textos dos mestres Dogen, Keizan, etc. Também é bastante comum haver aulas, uma ou mais vezes por dia, durante alguns retiros, pois esses retiros representam oportunidades de estudar determinados temas a fundo, durante três, cinco ou sete dias consecutivos.
A Monja Isshin conta que, pessoalmente, no mosteiro, considerava os retiros uma espécie de “férias d’alma”, mas isso não significava que eram simplesmente um tempinho para “relaxar do estresse” e “ficar olhando somente para o seu próprio umbigo”. Afirma que eram oportunidades maravilhosas para aprofundar sua prática em todos os seus aspectos – o Sangaku.
No mosteiro feminino onde a Monja Coen e a Monja Isshin realizaram o treinamento monástico (Aichi Senmon Nisodo), no decorrer de dois em cada três retiros, a abadessa Aoyama Roshi ministrava 90 minutos de aula duas vezes ao dia durante três ou cinco dias (manhãs e tardes). Mais ainda, o último período noturno de zazen nestes retiros era dedicado à leitura em grupo do Fukanzazengi (outra forma do Estudo). Ao final de cada Ango (período de treinamento) escreveram relatórios sobre os temas apresentados nos retiros e nas demais aulas, e receberam notas em uma espécie de “boletim escolar”.
Em contrapartida, um em cada três retiros era o chamado retiro “de silêncio”, no qual até mesmo a própria Aoyama Roshi sentava-se voltada para a parede, e não havia recitação de sutras ou versos. Também não havia a circulação do monitor da sala (Kyosaku) por três dias.
Mais ainda, o Buda também ensina, em um de seus sutras, a importância dos dois tipos de monges: o monge dos Jhanas (monge da prática) e o monge do Darma (monge dos estudos ou monge acadêmico). Aqui em Porto Alegre, estamos abençoados em poder ter não somente monges/monjas da prática, como a Monja Isshin, mas também o monge acadêmico, Prof. Joaquim Monteiro, uma raridade neste país.
Baseado nestes modelos e ensinamentos, desde 2007 a Sanga Águas da Compaixão realiza o Sangaku Sesshin – Retiro dos Três Treinamentos – onde praticamos a Moralidade nas atividades de sentar em Zazen ou fazer Samu (atividade diária). Na atitude de um buda, praticamos a Meditação ao sentar em Zazen e praticamos o Estudo ao ouvir as aulas do Prof. Monteiro e palestras da Monja Isshin.
Este ano (2012) iniciamos o estudo do texto que forma a base comum da “psicologia budista” das escolas tibetanas e das escolas que seguem o pensamento do Yogacara, como o Zen – o AbhidharmaKosa.
Nas palavras do Prof. Monteiro:
“O AbhidharmaKosa, escrito no século 4 a.D. por Vasubandhu, representa a culminação do pensamento do Abhidharma de uma das escolas budistas mais importantes da época, a escola Sarvastivada. Sintetiza de forma sistemática as contribuições de outras escolas importantes, Gandhara e de Caxemira.
Seu aprendizado é extremamente importante, principalmente pelas três seguintes razões:
- Inclui a explanação de todos os conceitos budistas fundamentais para além das divisões de linhagem ou de escola;
- Devido ao fato de ser reconhecido por todas as tradições budistas do extremo-oriente (China, Coréia, Japão) e da Ásia central (Tibete, Mongólia, Butão), seu estudo proporciona uma base comum no aprendizado dos conceitos fundamentais do Budismo;
- Para os praticantes da tradição Soto do Zen japonês, ele esclarece os conceitos da impermanência e da instantaneidade dos cinco agregados, conceitos esses, vistos por Mestre Dogen (1200-1253) como indispensáveis ao processo de suscitar a “Mente do Discernimento” que está na base da entrada nos estados supramundanos.
Nesse ano, nosso aprendizado será centrado nas sete primeiras estâncias do primeiro capítulo desta obra, juntamente com os seus comentários. Seu objetivo será esclarecer o conceito dos dharmas condicionados, incondicionados, contaminados e não contaminados.
É nossa convicção que este aprendizado é essencial, tanto ao aprofundamento da prática, quanto à promoção do diálogo entre as diversas tradições budistas presentes em nosso país.”
Início: 17 fevereiro às 19 hs
Término: 22 fevereiro ao meio-dia
Orientação: Monja Isshin Havens
Palestrante Especial Convidado: Rev. Prof. Joaquim Shaku Shoshin Monteiro
Organizaçào: Sanga Soto Zen Budista Águas da Compaixão – Porto Alegre, RS
Local:
Jisui Zendô (Zendô Águas da Compaixão)
Rua Eliziário Goulart da Silva, 93 (antiga Rua Vista Alegre)
bairro Cristo Redentor (atrás do Hospital Cristo Redentor, bem próximo à Avenida Assis Brasil)
Veja as mãos das ruas para chegar de carro no Google Maps:
Baixar o arquivo: Abhidharmakosa – Cap 1 – Estancias 1-7
. Abhidharma (Wikipedia, em inglês)
. Vasubandhu (Wikipedia, em inglês)
. Sarvastivada (Wikipedia, em inglês)
. Sarvastivada (Wikipedia, em português)







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fevereiro 15, 2011 às 7:02 am
…gasshô!