Textos de Mestre Dogen (12)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma
Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante
Parte 4: A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”

5. A necessidade de procurar um verdadeiro Mestre

Um antigo Buda-Ancestral disse certa vez: “Se no princípio a Mente-Bodhi não for verdadeira toda e qualquer prática resultará em nada.” Quão verdadeiro!  A qualidade da prática também depende da verdade ou falsidade do mestre.

O praticante budista pode ser comparado a um bom pedaço de madeira, e o verdadeiro mestre a um bom carpinteiro. Até mesmo a madeira de melhor qualidade não mostrará sua extraordinária beleza se não for trabalhada por um bom artesão. Um pedaço de madeira empenada, em mãos habilidosas, imediatamente mostra esplendidos resultados.  A veracidade do mestre está em direta relação com a verdadeira ou falsa iluminação de seus discípulos. Isto deve ser bem compreendido.

Em nosso país, no entanto, não tem havido verdadeiros mestres desde tempos antigos. Como reconhecemos? Através de suas palavras. Da mesma forma que podemos saber da natureza da nascente se apanharmos uma conchinha de água fluindo no rio.

Por séculos neste país mestres têm compilado livros, ensinado discípulos, e guiado seres humanos e celestiais. Entretanto, suas palavras eram verdes, imaturas, pois  ainda não haviam atingido o nível profundo do treinamento. Como poderiam ter alcançado a iluminação? Apenas transmitiam palavras, recitando nomes e sons. Dia e noite eles contavam o tesouro alheio, sem ter nada de seu.

Mestres anteriores são responsáveis por este estado de coisas. Alguns deles ensinavam que a iluminação deveria ser procurada fora da mente, outros que o renascimento em outras terras era o objetivo. Esta é a fonte da confusão e da delusão.

Um bom remédio, se não for usado de acordo com as instruções adequadas, pode piorar a doença ou mesmo se tornar um veneno. Em nosso país, há muito tempo, não tem havido mestres capazes de controlar o efeito venenoso dos remédios. Por esta razão tem sido tão difícil eliminar os sofrimentos da vida e a doença. Como, então nos libertar do sofrimento da velhice e da morte?

A culpa desta situação é inteiramente dos mestres, não dos discípulos. Por que? Porque eles guiam seus discípulos ao longo dos galhos das árvores, sem penetrar até as raízes. Sem compreender completamente o Caminho, absorvidos em suas próprias idéias e pensamentos, arrastam outros para o mundo da delusão. Que pena! Como os discípulos podem saber a diferença entre o certo e o errado?

Infelizmente, o verdadeiro Darma de Buda ainda não se espalhou por este pequeno país, e mestres verdadeiros ainda terão que surgir. Se você deseja praticar o insuperável Caminho de Buda,  terá que viajar longas distâncias até a China da Dinastia Sung, e encontrando um mestre refletir no verdadeiro Caminho. Ir além dos pensamentos, distaciando-se da mente deludida. Se você é incapaz de encontrar um verdadeiro mestre, é melhor não estudar Budismo.

Só é verdadeiro o mestre que penetra o Darma Correto  e recebe o selo de aprovação de um mestre  genuíno. Não importa se é jovem ou não; experiente ou não. Para um mestre correto nem os estudos formais dos textos nem a compreensão intelectual são prioridade. Com capacidade além de qualquer limitação sua mente-coração livremente penetra os nós do bambu. Não fica apegado a idéias pessoais nem estagnado em sentimentos emocionais. Sabedoria e  prática em perfeita harmonia. Essas são as características de um verdadeiro mestre.

(a continuar)

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Textos de Mestre Dogen (11)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma
Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante

4. A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”

Na prática do Caminho é necessário aceitar os ensinamentos verdadeiros de nossos antecessores, colocando de lado nossas idéias preconceituosas. O Caminho não pode ser realizado com idéias ou sem idéias. Apenas quando a mente da prática constante coincide com o Caminho, corpo e  mente conhecem a  paz. Quando o corpo e a mente não estão em paz, espinhos crescem no caminho da iluminação.

Como harmonizar a prática pura com o Caminho? Para assim o fazer, a mente não pode estar apegada nem rejeitando nada, necessita estar completamente livre do apego a fama e ao lucro. Ninguém se submete ao treinamento budista por causa dos outros. A mente dos praticantes budistas, como a da maioria das pessoas de nossa época, todavia, está longe da compreensão do Caminho. Elas fazem aquilo que os outros elogiam mesmo sabendo que é falso. Por outro lado, elas não praticam aquilo que os outros desdenham mesmo que saibam que este é o verdadeiro Caminho. Que lamentável!

Reflita tranqüilamente se suas palavras e ações estão unidas com o Budismo ou não. Se fizer isto, você irá perceber o quanto elas são vergonhosas. Os olhos penetrantes dos Budas-Ancestrais estão constantemente iluminando o universo inteiro.

Desde que os praticantes budistas não fazem nada para si mesmos, como eles poderiam fazer algo pela fama ou pelo lucro? Vocês devem praticar apenas pelo próprio Budismo. Os vários Budas não demonstram sua profunda compaixão por todos os seres, nem por seu próprio bem, nem para impressionar os outros. Esta é a tradição Budista.

Observe como até os animais e insetos nutrem sua prole, tolerando vários sofrimentos durante o processo. Os pais não pretendem ganhar nada com suas ações, mesmo após sua descendência ter alcançado a maturidade. No entanto, embora sejam somente pequenas criaturas, têm profunda compaixão por sua prole. Isto também é assim com relação à compaixão dos vários Budas por todos os seres. O precioso ensinamento desses vários Budas, todavia, não está limitado somente à sua compaixão; ao contrário, eles aparecem em incontáveis modos por todo o universo. Esta é a essência do Budismo.

Nós já somos as crianças de Buda; por esta razão, devemos seguir seus passos. Praticantes, não pratiquem o Darma de Buda para seu próprio interesse. Não pratiquem o Darma de Buda por fama ou lucro. Não pratiquem o Darma de Buda para obter recompensa meritosa ou poderes miraculosos. Simplesmente, pratiquem Budismo por causa do Budismo; este é o verdadeiro Caminho.

Parte 5. A necessidade de procurar um verdadeiro Mestre

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Textos de Mestre Dogen (10)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen e Parte 1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi
Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma

3. A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante

Pessoas comuns acreditam que os estudos trazem as riquezas. Buda Xaquiamuni ensina que na prática há iluminação. Nunca ouvi falar de ninguém que tenha se tornado membro de lideranças milionárias sem estudar, ou alcançado a iluminação sem praticar.

Embora seja verdade que existam diferentes métodos de treinamento, aqueles baseados na fé ou na compreensão do Dharma, na iluminação súbita ou gradual[1], ainda assim, a iluminação depende de um treinamento. Embora a profundidade e a velocidade de compreensão das pessoas seja diferente, o tesouro é obtido através do estudo acumulado. Nenhuma dessas coisas depende dos soberanos serem superiores ou não, ou da sorte ser boa ou ruim.

Se o tesouro pudesse ser obtido sem estudo, quem iria transmitir o método pelo qual antigos monarcas, tanto em épocas de ordem ou desordem, governaram com sucesso o país?  Caso a iluminação pudesse ser sem treinamento, quem poderia compreender os ensinamentos do Tathagata[2], distinguindo, como ele fez, a diferença entre delusão e iluminação? Embora pratique no mundo da delusão, ainda assim é o mundo da iluminação. Então, pela primeira vez, você perceberá que a jangada do discurso é apenas um sonho passado e será capaz de cortar para sempre a visão antiga de conceitos pessoais que amarrava você as palavras das escrituras.

Buda não impõe esta visão a você. Ela aparece naturalmente a partir de sua prática no Caminho, a prática convida a iluminação. Seu tesouro natural não vem do exterior. Uma vez que a iluminação é una  com a prática, a ação iluminada não deixa traços. Portanto, quando olhar novamente a prática com olhos iluminados, você descobrirá que não há ilusões para serem vistas, apenas uma grande nuvem branca de dez milhões de ri[3] cobrindo todo o céu.

Quando a iluminação está em harmonia com a prática, você não pode desmerecer nem mesmo uma simples partícula de poeira. Se agir dessa maneira você se afastará da iluminação tanto quanto o céu está afastado da terra. Se retornar ao seu Verdadeiro Lar, poderá transcender até mesmo a condição de Buda.

(escrito em 9 de março, segundo ano de Tempuku 1234)


[1] A posição de que a iluminação vinha gradualmente como  resultado de leituras de sutras e práticas acumuladas eram mantidas pela Escola Zen do Norte da China. Esta escola terminou e apenas a Escola Zen do Sul, que pregava a realização da iluminação súbita, permaneceu.

 

[2] Este é outro nome para Buda Xaquiamuni. Significa uma pessoa que alcançou o ir e vir do Tathagata, o que é, a realidade absoluta que transcende a  multiplicidade de formas do mundo dos fenômenos.

[3] Um “ri” corresponde aproximadamente a uma milha

Parte 4: A necessidade da prática não egoísta do Caminho ou “Não pratique os ensinamentos de Buda com a idéia de ganho”

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen,
baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Textos de Mestre Dogen (9)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução e Parte 1: A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi

2. A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma

Uma frase oferecida por um conselheiro leal pode alterar o curso de uma nação. Quando Budas-Ancestrais oferecem, mesmo que seja uma única palavra, não deveria haver ninguém que não se convertesse. Entretanto, apenas reis sábios ouvem os conselhos de seus conselheiros, e apenas praticantes excepcionais ouvem as palavras de Buda.

É impossível cortar as fontes de transmigração sem abandonar a mente deludida. Da mesma forma, quando um rei não presta atenção aos conselhos de seus consultores leais, não mais prevalecerá uma política virtuosa, e ele será incapaz de governar bem o país.

Ler Parte 3: A necessidade de penetrar o Caminho através da prática constante

Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen, baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Textos de Mestre Dogen (8)

Gakudo Yojin-shu
Pontos a observar no Estudo do Caminho

Introdução por Monja Coen

“Mestre Zen Dogen completou este tratado para seus discípulos em Kosho-Ji em 1234, sete anos após ter retornado da China.

Trata-se de uma explicação rigorosa sobre a prática, onde não apenas o Zazen, mas todas as ações devem ser realizadas.

Iniciando com uma exortação para despertar a mente-bodhi, Mestre Dogen vai adiante e discute a importância do treinamento com um verdadeiro mestre, além de tópicos como a relação entre treinamento e iluminação e o significado da prática de Zazen. Muito embora o conteúdo do Shobogenzo seja filosoficamente mais profundo, o Gakudo Yojin-shu é muito estimado como um guia de treinamento na Soto Zen por aqueles que estão realmente engajados na prática diária do Caminho. Entre os numerosos trabalhos de Mestre Dogen este, em particular, merece ser lido repetidamente, idealmente em conjunto com o aprofundamento da própria prática pessoal; pois embora relativamente curto, ele apresenta nada menos do que o mapa da iluminação.” (Professor Yuho Yokoi, da Universidade de Aichi, no Japão)

Durante os oito anos de prática intensiva no Mosteiro para Formação de Monjas de Aichi, tive o privilégio de poder estudar e ouvir os ensinamentos de Kanpo Mano Roshi, Venerável Mestre, que todas as quartas feiras passava a manhã conosco nos instruindo no Fukanzazengi e no Gakudo Yojinshu.  A cada nova turma de monjas noviças, Mano Roshi reiniciava os estudos destes dois textos básicos de prática Zen Budista.  Ele já passara dos oitenta anos, quando o conheci, mas quando falava do Darma não tinha idade. Cada ano, embora o texto fosse o mesmo, suas palestras eram diferentes.  Quanto mais fui aprendendo japonês mais fui admirando a profundidade de sua sabedoria, sua terna compaixão, sua paciência nos instruindo e  a humildade com que relatava fatos de sua vida de prática religiosa, nos inspirando a penetrar nos dez importantes aspectos da prática do Caminho., este grande legado de Mestre Eihei Dogen.

Pontos a Observar no Estudo do Caminho, Gakudo Yojin-shu, é um dos textos usados para aprofundar a compreensão dos iniciantes no Zen Budismo e para aqueles que se engajam no Curso de Preceitos e Procedimentos organizado e dirigido pela Monja Coen, na Comunidade Zen Budista.  Foi uma das primeiras traduções feitas pelo Grupo de Estudos do Templo Busshinji, durante a época em que a Monja Coen orientava aquela comunidade.  A tradução atual é uma revisão modificada e melhorada daquele texto original e se baseou em várias versões em Inglês organizadas por diferentes mestres:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi

A Mente-Bodhi é conhecida por muitos nomes, porém todos se referem à mesma Mente Una. O Venerável Nagarjuna[1] disse, “A mente que vê através do fluxo do aparecer e desaparecer e reconhece a natureza transitória do mundo é também conhecida como Mente-Bodhi.” Por que então, a dependência temporária nesta mente é chamada de Mente-Bodhi? Quando a natureza transitória do mundo é reconhecida, não aparece nem a mente egoísta comum nem a mente que busca fama e proveito.

Ciente de que o tempo não espera por ninguém, pratique como se estivesse tentando apagar o fogo em seus cabelos. Reflita sobre a natureza transitória do corpo e da vida, se esforce exatamente como o Buda Xaquiamuni fez quando levantou seu pé[2].

Mesmo que ouça o chamado bajulador do deus Kimnara e do pássaro Kalavinka[3], não preste atenção, considere-os apenas como a brisa do anoitecer soprando em seus ouvidos. Mesmo que veja uma face tão bela como a de Mão-cha’ng ou Hsi-shih[4], pense nela apenas como o orvalho da manhã bloqueando sua visão.

Quando livre do apego ao som, cor e forma, naturalmente se tornará um com a verdadeira Mente-Bodhi. Desde os tempos antigos existiram aqueles que ouviram pouco sobre o verdadeiro budismo e outros tiveram pouca oportunidade de ouvir, ler e estudar os sutras. A maioria deles caiu na armadilha da fama e lucro, perdendo a essência do Caminho para sempre. Que pena! Que lamentável! Não ignorem isto.

Mesmo que você tenha lido os meios expedientes ou verdadeiros ensinamentos de grandes sutras[5] ou transmitido os ensinamentos esotéricos[6] e exotéricos, a menos que abandone fama e lucro, não se poderá dizer que tenha despertado a Mente-Bodhi.

Alguns dizem que a Mente-Bodhi é o mais alto e supremo estado de iluminação de Buda, livre da fama e do lucro. Outros dizem que  é aquilo que abrange um bilhão de mundos[7] em um único momento de pensamento, ou que é o ensinamento no qual nenhuma delusão surge. Outros ainda, dizem que é a mente que entra diretamente no plano de Buda. Estas pessoas, ainda sem entender o que é a Mente-Bodhi, de maneira devassa a caluniam. Elas estão, na verdade, muito longe do Caminho.

Reflita sobre sua mente comum, como está egoisticamente apegada, à fama e ao lucro. Está possuída pela essência e aparência dos três mil mundos, em um único momento de pensamento? Este pensamento único experimenta o portal do dharma do não nascido? Terá ela experimentado o ensinamento que não desperta uma única delusão? Não! Nessa mente apegada não há nada a não ser delusão de fama e de lucro, nada digno de ser chamado de Mente-Bodhi.

Muito embora desde os tempos antigos tenham existido Budas Ancestrais que usaram métodos seculares para realizar a iluminação, nenhum deles esteve apegado à fama e ao lucro, nem mesmo ao Dharma, quanto menos ao mundo comum.

A Mente-Bodhi é, como foi mencionado anteriormente, aquela que reconhece a natureza transitória do mundo – uma dos quatro percepções[8]. É completamente diferente daquela apontada pelas pessoas confusas.

A mente do não surgimento e a mente do aparecimento de um bilhão de mundos são práticas muito boas após se ter despertado a Mente-Bodhi. “Antes” e “após”, no entanto, não devem ser confundidos. Apenas esqueça de si e tranqüilamente pratique o Caminho. Esta é verdadeiramente a Mente-Bodhi.

Os sessenta e dois pontos de vista estão baseados no eu[9],  portanto, quando visões egoístas aparecem, apenas faça zazen tranqüilamente, observando. Qual é a base de nosso corpo, suas posses internas e externas? Você recebeu seu corpo, cabelo e pele de seu pai e de sua mãe. Entretanto, as duas gotas de seus pais, vermelha e branca[10], são vazias do início ao fim, portanto, não há nenhum eu aqui. Mente, consciência discriminativa, conhecimento e pensamento dualístico amarram a vida. O que, em última instância, são inalar e exalar? Não são o eu. Não existe nenhum eu para se apegar. A pessoa deludida, entretanto, está apegada a si mesma e a iluminada está desapegada.  Ainda assim vocês procuram medir o eu que é não eu  e se apegam ao surgir que é não surgir negligenciando a prática do Caminho. Por falhar em cortar suas amarras com o mundo fogem do verdadeiro ensinamento e correm atrás do falso. Vocês se atreve a dizer que não estão agindo erroneamente?


[1] Nascido em uma família de Brahman (ver  “O Mérito de Se Torna Monge” ) nota 9: no sul da Índia no segundo ou terceiro século AD, tornou-se um dos principais filósofos do Budismo Mahayana, sendo considerado como o Décimo Quarto Ancestral na linhagem da transmissão do Darma. Ele defendia a teoria de que todos os fenômenos são relativos, não tendo uma existência independente.

[2] No Budismo Mahayana se acredita que o fundador histórico do Budismo, Buda Xaquiamuni, atravessou inúmeras transmigrações antes de finalmente realizar a iluminação. Também se acredita que antes do Buda histórico tiveram  milhares de pessoas que já tinham atingido o “Estado de Buda”, sendo um deles o Buda Pusya. Quando o Buda Xaquiamuni em uma de suas vidas anteriores encontrou este Buda, é dito que para  mostrar seu  respeito para Pusya, Xaquiamuni permaneceu com um pé levantado por sete dias e noites cantando um sutra.

[3] Kimnara é um deus indiano da música. O kalavinka é um pássaro mítico indiano com uma bela voz.

[4] Estas duas mulheres são consideradas entre as mais belas cortesãs da antiga China.

[5] “Ensinamentos verdadeiros” refere-se propriamente aqueles do Saddarma-pundarika. Avatamsaka, e do Mahaparanirvana Sutra e “livros” incluem todos os outros ensinamentos.

[6] Os ensinamentos esotéricos são encontrados nas escolas  Shingon japonesa e Tendai, e refere-se a doutrinas e rituais com grande influências do hinduísmo, que se desenvolveram na Índia durante os séculos sete e oito. Estes ensinamentos, tendo propriedades mágicas, apenas podem ser revelados àqueles que foram devidamente iniciados. Os ensinamentos exotéricos se referem a todos os outros ensinamentos.

[7] Pensava-se que todo o universo, em sua integridade, fosse constituído de um bilhão de mundos.

[8] Em inglês insights. De acordo com o Novo Dicionário Aurélio: Compreensão repentina, em geral intuitiva, de suas próprias atitudes e comportamentos, de um problema, de uma situação.

Os outros três insights são: (1) que o corpo é impuro; (2) que a percepção conduz ao sofrimento;  e (3) que a mente é impermanente.

[9] Em inglês: “self”.

[10] A gota vermelha representa o óvulo da mãe e a branca o esperma do pai.

Parte 2: A necessidade de treinar ao encontrar o Verdadeiro Darma

- Tradução: Grupo de Estudos do Templo Busshinji, revisada pela Monja Coen, baseada nas versões em inglês nos livros:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings, de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

Casamento Zen Budista

do site de Monja Coen (professora de ordenação da Monja Isshin)

Cerimônia Budista de Casam
por Márcia Maranhão Limongi

Considerado um sacramento, o matrimônio, na religião budista, é ministrado pelo abade ou (oficiante) no templo. Como estamos no Brasil, a cerimônia pode sofrer algumas variações, “ocidentalizou-se” um pouco, sem perder sua essência, inclusive é permitido o uso do tradicional vestido de noiva. Não é recomendável trajes da cor preta para noivos e padrinhos.

No altar onde se encontra a figura de Buda, só é permitida a presença do noivo, que fica ao lado esquerdo e a noiva , à direita , e dois (ou mais) padrinhos como testemunhas, permanecem atrás do casal ou de cada lado do altar, nunca atrás de Buda. Os noivos entram e caminham juntos até o altar, seguidos pelos padrinhos, que têm a função de orientar e aconselhar os recém-casados durante a vida. Vários toques anunciam o início da cerimônia. Nos toques, todos fazem reverências a Buda.

No altar ficam dispostos um vaso e um candelabro vazio. Os noivos deixam antecipadamente as flores (de preferência um maço de flores alegres, sem espinhos), e a vela vermelha sobre o altar. Ao chegar ao altar, a noiva faz a oferta da flor, e o noivo, por sua vez, oferta a vela acesa e assim inicia-se a cerimônia. “As ofertas são para evocar Buda e seus ancestrais para que eles abençoem os noivos. No altar também fica uma caixinha de incenso em pó, levado pela oficiante e aceso pelos noivos para evocar os seres iluminados”.

Exemplo de Altar

A batida do sino anuncia a leitura do sutra (poemas que contam a passagem do Buda pela terra) e, neste momento os convidados que estão participando da cerimônia religiosa juntam as mãos, inclusive os padrinhos. Este gesto quer mostrar que o ato do juntar as mãos significaria a pessoa colocando sua mão junto à mão do Buda.

Um dos rituais mais significantes dessa cerimônia é o san-san-kudo ou três-nove em português, que é mantido em um bule. A bebida é servida em 3 xícaras, na maioria das vezes saquê, e cada um dos noivos têm de beber de cada uma das 3 xícaras, segurando-as com as duas mãos. A oficiante derrama um pouco de saquê na primeira xícara e a oferece à noiva, que toma seu conteúdo; em seguida, a mesma xícara é oferecida ao noivo e assim por diante, até os dois tomarem 3 goles da mesma xícara, passando para a xícara seguinte (mais 3 goles) e depois para a última xícara, completando 9 goles cada um. Este ritual remete às três jóias na religião: Buda, aquele que está desperto; Dharma, o caminho da compreensão e do amor, e Sangha, a comunidade que vive em consciência e harmonia.

Para cada tacinha, um significado:
Taças1 – o Pinheiro, que permanece sempre verde em todas as estações. É a juventude, a força, a vida.
2 – o Bambu, que é flexível. Ele se dobra, mas não se quebra.
3 – a Flor da Ameixeira, porque é a primeira flor a desabrochar. Abre mesmo quando ainda há neve. Representa a beleza e a coragem.

A etapa seguinte são os votos, elaborados com antecedência pelos próprios noivos e lidos pelos dois, em conjunto, na cerimônia.

Em seguida, os noivos e padrinhos assinam o livro da oficiante e esta abençoa as alianças. Os noivos colocam as alianças.

Outro momento importante é quando o oficiante entrega os rosários de 108 contas aos noivos e os coloca na mão esquerda de cada um. São 108 portais para a iluminação. Cada obstáculo é um portal a ser superado. Veja a descrição dos 108 portais em http://www.monjacoen.com.br/108.htm.

No final da celebração, todos os presentes fazem um minuto de silêncio e mentalizam a harmonia e felicidade dos noivos.

Nota: a Monja Isshin oferece a cerimônia de Casamento Zen Budista em Porto Alegre.