Retiro Aberto com Saikawa Roshi em Florianópolis

Um grupo da Sanga Águas da Compaixão (a Monja Isshin, Marcelo, Ieda e Andreia) participou do Retiro Aberto com Saikawa Roshi de 12 a 17 de outubro que foi realizado na Casa de Retiros Vila Fátima em Florianópolis.

A Monja Isshin atuou como Ino-Doan (Cantora das Dedicatórias e Instrumentos), Instrutora de Cerimonial e Procedimentos da Prática e Intérprete para as palestras do Roshi.

No penúltimo dia do retiro, os três praticantes da nossa Sanga, juntamente com cinco membros da Comunidade Zen Budista de Florianópolis, receberam a Transmissão dos Preceitos para Leigos (Jukai, ou Zaike Tokudo) e “entraram na família de Buda”. Seus nomes de Darma:
Marcelo – Jinshin – Fé Profunda
Ieda – Seishin – Coração-mente Sincero e Correto
Andreia – Sôtoku – Criação Virtuosa ou a Virtude da Criação

Registramos aqui os nossos parabéns ao Monge Genshô pela sua cerimônia de Combate do Darma e os nossos profundos agradecimentos ao Saikawa Roshi pelos seus ensinamentos profundos, ao Monge Jishô (Handa-san, assistente do Roshi), Monge Kogen (co-tenzo), ao Monge Genshô, aos membros da Comunidade Zen Budista de Florianópolis, bem como a todos os outros participantes pela oportunidade de aprofundar a nossa prática num ambiente de plena harmonia e tranqüilidade, onde vivemos o Tesouro da Sanga na sua completude. A Sanga verdadeira é UNO, sem espaço para divisões – é a Comunidade Harmoniosa.

Gassho,

Fotos do Retiro:

Fotos da Cerimônia de Transmissão dos Preceitos Leigos:

Fotos da Ordenação Monástica do Monge Meiyô Vargas (Chile):

Fotos da Cerimônia de Combate do Darma de Monge Meihô Genshô Chalegre:

Nota: para mais informações sobre a prática Leiga e a Ordem Monástica de nossa escola, veja a reprodução deste texto do antigo site do Zendo Brasil: A Ordem Monástica da Escola Soto Shu.

fotos: Monja Isshin, Michel (Sanga de Florianópolis)

Palestra com o Monge Gabriel

Teremos o grande prazer de receber o Monge Gabriel (Rev. Ngawang Tenphel) em nosso espaço (R. Portugal 733, como chegar) no sábado, dia 25 de outubro. Ele participará de nossa prática a partir das 17 hs (zazen, prática de cerimonial) e, em seguida, dará uma palestra “Treinamento Monástico na Tradição Tibetano” durante a qual compartilhará conosco sua experiência no mosteiro tibetano.

Solicitamos que as pessoas que desejem participar de todas as atividades cheguem ás 16:45 hs. Para quem venha somente para a palestra, pedimos que cheguem até 18:45 hs.

O evento é aberto a todos os interessados – convidem seus amigos!

Sugerimos uma doação mínima de R$ 10,00.

Informações sobre o Monge Gabriel e o mosteiro onde ele faz o seu treinamento
Blog do Monge Gabriel, Montanha Dourada

Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 3

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 3
por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão

Texto introdutório: Repensando o Alimento
Parte 1: O Caminho do homem que cozinha
Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar

(3) Lavando o Arroz, Lavando o Coração.

Quando valorizamos o nosso trabalho, tudo fica simples e fácil. Se temos a atitude correta o trabalho é purificado. A manifestação da plenitude torna-se visível. Quando repetimos todos os dias o mesmo trabalho, começamos a trabalhar automaticamente, com o pensamento em outro lugar. Nada é simples. é preciso ter atenção no trabalho, porque ele é um reflexo de humanidade e consideração.

Vamos ver a situação de servir o chá. Como é explicado no “Nichijô Sahanji”, o ato de servir o chá está conectado à nossa vida diária. Embora existam vários tipos de chá, várias quantidades a serem servidas, diferentes horários, o sentimento de receber o chá é incalculável. É preciso se empenhar para realizar esta tarefa. Por outro lado, há situações em que este trabalho fica difícil. São necessárias várias tentativas e erros.

Isto é comum ao se lavar o arroz, embora este trabalho pareça simples. Medir a quantidade do arroz, colocar água, lavar os grãos parece fácil e monótono. Entretanto, se temos pressa, fica difícil lavar bem o arroz. Se não tomarmos cuidado, podemos deixar uma pequena sujeira passar ou o arroz pode acabar sendo jogado fora junto com a água. Depois de lavado, ajustamos o volume de água necessário para ele cozinhar. A quantidade de água influencia no gosto da comida. Devemos levar em conta a procedência dos ingredientes para poder fazer os ajustes. Se estes pontos forem esquecidos não será possível transmitir felicidade para a pessoa que recebe a comida.

Em outras palavras, o arroz possui vida. O mesmo valor tem os outros ingredientes, nada deve ser desperdiçado. Desta maneira o “tenzo” executa seu trabalho centralizado na pessoa que vai receber a comida. Não é porque o trabalho é simples que iremos trabalhar com negligência. Devemos ficar atentos não apenas com a sujeira, mas também com os grãos colados nela. Quando lavamos o arroz, devemos concentrar nosso coração-mente. Neste ponto, a unidade entre o trabalho e a pessoa se manifesta. Embora não exista a vontade de praticar, deve-se buscar este estado de unidade.

Se não existir esta relação entre a pessoa e o trabalho, quando jogarmos alguma coisa fora, ou quebrarmos algum objeto, não sentiremos nada. Mas se existir esta unidade, sentiremos dor se acontecer uma destas coisas. Chamamos de “etiqueta do arroz” o poder usar todo este potencial. Este tipo de coração é muito importante nesta época de abundância.

Lavar o arroz não é simplesmente lava-lo com água. A pessoa que lava deve checar o coração. O que faz deste trabalho uma prática budista é o esforço e a atitude empregados. Em todos os dias, nossa única preocupação, deveria ser guardar esta verdade dentro de nossos corações.

- adaptado de um artigo publicada na revista Caminho Zen, Vol. 10, No. 3 – 2005

Continuar lendo:
Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun)
Parte 4: Arranjo e Procedimento
Parte 5: Discriminação para a Comida
Parte 6: Respeitar a Comida

Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 2

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 2

por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão
Texto introdutório: Repensando o Alimento
Parte 1: O Caminho do homem que cozinha

(2) Os Efeitos espirituais do cozinhar

Como a preparação das refeições é um trabalho diário, o “tenzo” – o monge responsável pela preparação das refeições – segue o mesmo ritmo, continuamente, durante o ano inteiro. Diariamente, depois do almoço, dirige-se ao diretor (tsûsu) ou ao diretor assistente (kansu) do Templo, para discutir os detalhes das refeições para o dia seguinte. Primeiro é preciso saber quais são os ingredientes disponíveis para serem usados nas próximas refeições. São tomados muitos cuidados para a preparação dos ingredientes, que devem ser limpos e guardados para evitar a sujeira e os insetos. A comida é tratada como o tesouro mais precioso. Muitas vezes, compras de emergência são inevitáveis, mas geralmente as compras são planejadas para formar o estoque necessário, evitando um excesso desnecessário e o apodrecimento de comida na geladeira.

Uma vez selecionados os ingredientes, o “tenzo” tem uma reunião com os seis administradores do Templo (roku chiji) para decidirem as refeições do dia seguinte. Isto é feito de uma maneira prática, levando em consideração a necessidade de aumentar a quantidade de comida, quando há trabalhos que consomem muita energia ou um treinamento religioso muito rigoroso. Uma vez decidido o menu, ele deve ser escrito em um mural chamado “gonjôhai”.

Quando é iniciada a preparação de uma refeição, todos os presentes na cozinha cooperam e a responsabilidade também é dividida entre todos. O trabalho é importante demais para permitir negligência entre os que participam. Mas o “tenzo” não deixa tudo nas mãos das outras pessoas, embora o trabalho de cada um seja muito importante. Os oceanos são formados por gotas de água, e as montanhas são o resultado de muitos acúmulos de poeira.

É preciso que vejamos o todo e os indivíduos como partes complementares. Frequentemente nos preocupamos com os preços do supermercado, mas deixamos as torneiras abertas, a televisão ligada sem ninguém olhando, e jogamos fora papel de embrulho, em bom estado.

Os cozinheiros devem evitar o desperdício. Devem checar, cuidadosamente, se não há sujeira no arroz, ou se ele não é jogado fora junto com a sujeira. Chega um momento em que o cozinheiro coloca todo o seu coração para preparar a mais deliciosa das refeições. Neste instante, ele, a pessoa que recebe a refeição e os ingredientes se tornam um. É neste instante que o ato de preparar a comida purifica o coração, Não existe mais espaço para coisas secundárias.

Cada grão de arroz possui a existência da vida, e por isso não pode ser desperdiçado.

Há muito tempo atrás este significado foi esquecido. Jogamos fora lápis, que embora curtos, ainda podem ser usados, ou rasgamos cadernos que ainda tem folhas em branco. Esta tendência humana atingiu proporções tão monstruosas que mesmo coisas mais caras são jogadas fora, como relógios, guarda-chuvas e roupas.

Podemos evitar tudo isso, não sendo tão obsecados pelo que consideramos as coisas importantes na vida, lembrando que as pequenas coisas como os grãos de arroz e as verduras tem a vida dentro delas.

- adaptado de um artigo publicada na revista Caminho Zen, Vol. 10, No. 1 – 2005

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Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun)
Parte 3: Lavando arroz, lavando o coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento
Parte 5: Discriminação para a Comida
Parte 6: Respeitar a Comida



Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun) – 1

Refeição como Disciplina Espiritual
Lições do Tenzo Kyôkun – 1
por Tatsuzen Satô
Prof. da Faculdade Junior Ikuei, Japão
Texto introdutório: Repensando o Alimento

Dôgen Zenji, percebendo a íntima correlação existente entre as refeições e as atividades de Buda, escreveu dois livros importantes sobre o assunto. Um é o Tenzo Kyôkun (Instruções para o Chefe de Cozinha, ou, Instruções para o Cozinheiro Chefe), que estabelece as regras para o preparo das refeições, explica o seu significado, e qual a atitude correta em relação as regras. O outro livro é o Fushukuhanpô (Regras para a Alimentação), que explica as regras e a etiqueta que os monges em treinamento precisam observar na hora das refeições. O preparo das refeições é considerado uma parte vital do treinamento, e por isso o “tenzo”, ou chefe de cozinha, é um dos seis administradores (roku chiji) principais de um monastério.

(1) O Caminho do homem que cozinha

Antes de entrarmos nos detalhes do trabalho do “tenzo”, devemos pensar, novamente, porque é tão importante o trabalho do cozinheiro. Já se passaram dez anos, mas não esqueço um comercial de televisão, embora quase ninguém mais lembre dele. Neste comercial uma esposa tinha feito uma comida instantânea, e ao apresenta-la ao marido, diz : eu faço a comida” e ele responde “e eu como a comida”. No entanto, em menos de um mês, este comercial foi retirado das telas de televisão.

O motivo foi que o comercial tinha provocado críticas de discriminação sexual, por insinuar que o trabalho de cozinha é responsabilidade apenas da mulher.

Quanto eu lia a coluna do leitor, no jornal diário, observava que ninguém escrevia sobre a importância de cozinhar. Esta tem sido a atitude dos japoneses com relação as refeições.

Atualmente, é comum ver jovens casais fazendo compras juntos no supermercado. Se os dois seguem uma carreira profissional, fala-se que o homem também deve compartilhar a responsabilidade do serviço doméstico. Mas ainda se encara de maneira negativa um homem preparar a comida, ou ajudar na cozinha.

Como justificativa, citam a frase chinesa “o homem deve afastar-se da cozinha”. Mas esta frase não significa que um homem não deva trabalhar na cozinha. No Japão não se ensina a atitude correta para a preparação de uma refeição.

Dogen Zenji escreveu que o “tenzo”, sendo a pessoa encarregada das refeições desde os tempos antigos, tem sido um sacerdote que inspira as pessoas a buscarem o Caminho de Buda e da Iluminação.

As refeições se baseiam em três elementos – a pessoa que prepara a comida, a pessoa que a come e os ingredientes com que ela é feita. O ideal a ser cultivado é desenvolver um hábito alimentar baseado no relacionamento místico destes três elementos. Quem prepara a comida deve pensar na pessoa que receberá esta refeição, colocando este sentimento na comida.

Deve-se fazer um esforço para usar os animais e as plantas que servem de ingredientes, lembrando das vidas preciosas destes seres.

De acordo com a consciência de quem prepara ou come uma refeição, seu aspecto muda completamente. Mesmo usando os mesmos ingredientes, o resultado final pode ser bom ou mau. “Não há nenhum mérito em fazer um trabalho, se não se tiver fé no Caminho de Buda. “

O importante é sempre focar na sua mente e coração o objeto da sua ação. Embora a pessoa sem experiência tenha dificuldade em entender, quando se prepara a comida com o espírito – inconscientemente – a face reflete isto, está calma e numa atmosfera mística.

Fazer uma refeição é um trabalho árduo e profundo, que inicia com o preparo dos ingredientes e dos temperos.

Por isso no mundo do Zen, cozinhar e praticar são inseparáveis. Cozinhar já é um treinamento em si mesmo, cozinhar é uma manifestação da prática. Se o coração estiver presente e pensando nas outras pessoas, a compreensão de si mesmo será cultivada. Por isso cozinhar é um caminho para aperfeiçoar o caráter.

O mesmo se aplica a outras atividades, que vão desde o despertar pela manhã até a hora de dormir.
Isto guia os seis administradores do templo nos vários tipos de trabalho.

O Tenzo Kyôkun explica isto em todos os detalhes. Se não pudermos entender a essência deste livro, não seremos capazes de preparar uma refeição de modo adequado.

- adaptado de um artigo publicada na revista Caminho Zen, Vol. 10, No. 2 – 2005

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Refeição como Disciplina Espiritual (Lições do Tenzo Kyôkun)
Parte 2: Os Efeitos espirituais do cozinhar
Parte 3: Lavando arroz, lavando o coração
Parte 4: Arranjo e Procedimento
Parte 5: Discriminação para a Comida
Parte 6: Respeitar a Comida