Varrendo o pátio, limpando a mente

 

por Laida Costa, praticante Zen Budista


Por longo tempo imaginei receber ensinamentos orientais. Fui informada de que chegaria a Porto Alegre uma monja com treinamento zen-budista no Japão e seria a orientadora espiritual no Via Zen. Fiquei aguardando com expectativa. Confirmou-se sua vinda. Pensei ser a hora – terei uma mestra budista. Marquei entrevista. Chegou o momento de receber os profundos ensinamentos. Compareci na hora marcada. Primeira lição: varrer o pátio durante seis meses! Fiquei para o zazen das 19 horas. Saí decidida. Vou seguir as instruções com devoção. Cheguei em casa, já era tarde, sentei-me perto da janela… senti o ar agradável da noite…fiquei refletindo sobre a entrevista…naquele momento entrou uma mariposa grande, de cor amarela…pousou em mim…soltou três bolinhas verdes …olhei e pensei “três”…Buda, Dharma e Sangha…e como um raio veio à minha mente: “transformação”!

Chegou o primeiro domingo de trabalho.
Senti um grande entusiasmo. Que alegria! Comecei. No pátio muita umidade…muitas folhas apodrecidas…muita sujeira acumulada por longos meses. Fiquei animada. Uma grande satisfação. Um verdadeiro treinamento inicial de um mosteiro shaolin! Não consegui terminar no primeiro dia…


Segunda semana…
Cheguei novamente animada… e continuando o trabalho, os micuins – insetos minúsculos – me atacaram dos pés à cabeça…mosquitos começaram a me picar…havia lacraias, lesmas por todo lado; sempre tive aversão a esses bichos… ao recolher galhos de árvores que estavam no chão, fui atingida no rosto…comecei a sentir uma grande irritação…muita raiva de estar fazendo aquilo ali…então pensei: vou falar com a monja…não quero mais isso, não tenho vocação para isso. Que coisa horrível! Acabou o horário do samu… fui para o zazen… depois do zazen: - “por hoje não vou falar nada”.


Terceira semana…

Fui limpar a calçada da frente. Que turbilhão dentro de mim; domingo à tarde, varrendo a rua…- se meus colegas passarem aqui, amanhã vão zombar de mim. Se minha família me encontrar aqui, certamente dirá que não preciso disso e naquele momento pensei que poderia estar me divertindo em outro lugar. Como me presto a isto? Que horror! Fui para o zazen, novamente não falei nada… – volto na próxima semana…vou persistir…


Meses depois
Varri o pátio, a vassoura circundou uma lesma…aquele ser tão inocente merece ser poupado…as lesmas…os insetos…eles têm as suas comunidades também, que fiquem em seu sossego. Ali no jardim recolhendo as folhas das árvores caídas na brita, veio a primeira lembrança que tenho de mim na infância, aos quatro anos de idade…de cócoras brincando com pedrinhas…as duas imagens se fundiram em minha mente, tamanha semelhança “antes” e …. “aqui e agora”…em silêncio, eu comigo mesma. Uma grande sensação de leveza. Senti uma profunda gratidão por estar limpando o pátio… pela oportunidade de treinar o corpo e a mente. A cada semana, à medida que vou praticando, percebo uma transformação acontecendo no meu interior. Sempre saio do samu com uma energia renovada. Pensamentos e sentimentos equivocados dissolvem-se, experimento uma grande paz interior e sinto-me mergulhada em uma Consciência maior.

Limpando o pátio… esvaziando a mente…
Obrigada, Monja Isshin.

abril, 2007

 

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